Predestinação como Temporal Apenas
J. Kenneth Grider
(Wesley Theological Journal – Jornal Teológico Wesleyano,
Volume 22, número 2, Outono, 1987)
Um dos achados teológicos mais interessantes que eu tenho feito nos últimos anos é que a nossa predestinação por Deus não parece ter a ver com o destino eterno.
Deus realmente nos predestinou de determinadas maneiras. Seis vezes a palavra para “predestinar” é usada no Novo Testamento. Além dos casos de cognatos dessa própria palavra “proorizo”, outras palavras com “pro” são encontradas em ambos os Testamentos, as quais também mostram que Deus faz pré-decisões sobre vários assuntos. E Deus às vezes faz decretos, como os reis fazem, de acordo com a Escritura. Mas o meu estudo recente sugere que nenhuma destas referências tem a ver com o nosso destino eterno, mas apenas com outras questões.
A fim de se concentrar no que a Escritura ensina sobre a predestinação como eu tenho considerado o assunto por último, talvez algo devesse ser dito primeiramente a respeito dos pontos de vista sobre a predestinação, os quais tem sido desenvolvidos historicamente, após o que, vou discutir a predestinação como eu penso que ela deve ser ensinada. O leitor que está familiarizado com o assunto da predestinação pode não querer ler o que aparece aqui sob o tema “As Quatro Visões Históricas da Predestinação”, e querer ler sobre a direção que o meu pensamento toma como discutido sob o título “Predestinação Temporal”.
As Quatro Visões Históricas da Predestinação
Pelo menos quatro visões da predestinação têm surgido historicamente – apenas três delas são as mais importantes.
Uma delas é a visão da predestinação sublapsariana. Esta é a visão de que Adão era livre no seu pecado crucial, mas uma vez que ele pecou livremente, o destino eterno de cada pessoa em toda a história humana foi decidido de forma completamente soberana por Deus. Este ponto de vista deveria ter sido chamado pós-lapsarianismo, porque significa que após a queda, ou o lapso, o destino de cada pessoa foi decidido por Deus. Esta é a visão de Agostinho, o primeiro teólogo, oriental ou ocidental, a ensinar a predestinação incondicional. Esta é uma visão incondicional porque a predestinação não está condicionada sobre se uma pessoa reúne ou não qualquer condição tal como a de se arrepender e crer em Cristo. Agostinho acreditava, curiosamente, que o número dos seres humanos incondicionalmente predestinados a ir para o céu é igual ao número de anjos que caíram.
Tiago Armínio acreditava que Agostinho adquiriu a idéia para sua doutrina a partir dos Estóicos e Emil Brunner sugeriu a mesma coisa. Agostinho lia e apreciava os Estóicos e ele poderia muito bem ter tomado emprestado deles este ponto de vista, pois eles ensinavam uma doutrina que é semelhante. Eles – os Estóicos – ensinavam que existe uma lei de necessidade pela qual o universo inteiro, bem como tudo em seu funcionamento e até mesmo o próprio Deus, está sujeito a ela. É possível, também, que em sua doutrina, Agostinho tenha emprestado esta visão a partir dos Gnósticos, pois eles também ensinavam uma doutrina que era semelhante. Eles – os Gnósticos – ensinavam, em geral, que todos os indivíduos nascem ou com certa centelha divina da gnose, o conhecimento, ou que eles são simplesmente almas animais que nasceram sem esse conhecimento. Alguns Gnósticos acreditavam que algumas pessoas são “médiuns” que podem mudar seu destino eterno, mas, na maioria dos casos, os Gnósticos acreditavam que cada um de nós está predestinado incondicionalmente a receber a salvação ou a não desfrutá-la.
Agostinho poderia ter necessitado de fluência para ler melhor o grego e por causa disso, ter sido significativamente influenciado pelos escritos gregos dos Gnósticos. No entanto, alguns dos ensinamentos de sua predestinação são tão semelhantes ao ensino dos Gnósticos, que pode ter havido uma influência deles sobre a sua visão. Agostinho sentiu, é claro, que ele estava ensinando nesse ponto da mesma forma que a Escritura faz.
Além de Agostinho, Martinho Lutero ensinou a predestinação sublapsariana. Lutero foi semelhante a Agostinho, em muitos aspectos, com exceção de suas doutrinas da Igreja e da Ceia do Senhor. Esta usual semelhança incluía a questão da predestinação. O próprio Lutero disse que não sabia qual o destino eterno a que ele próprio estava predestinado. Ele disse que isso minaria o nosso ser justificado pela fé, se pudéssemos saber, isto é, ter conhecimento do nosso destino predestinado.
Outro ponto de vista é da predestinação supralapsariana. É a visão de que Adão não foi livre no seu pecado, e que até seu destino eterno, juntamente com o destino de todos os outros, foi determinado por Deus antes da criação de Adão e antes mesmo da criação do mundo. Esta opinião poderia ter sido chamada pré-lapsarianismo, da mesma forma como o sublapsarianismo deveria ter sido chamado pós-lapsarianismo. Ninguém ensinou claramente o supralapsarianismo antes de Calvino, e nem sequer é certo que Calvino o fez. Parece, no entanto, que em Acordo dos Pastores de Genebra ele ensina o sublapsarianismo, enquanto que pela sua obra magna, As Institutas da Religião Cristã, parece ensinar o supralapsarianismo. Não tornando completamente claro se Adão foi livre no primeiro pecado, Calvino ensina, certamente, pelo menos, uma visão sublapsariana. Ele escreve: “E assim também são os próprios infantes, visto que trazem a sua condenação com eles desde o ventre de suas mães, estão expostos à punição, e não por causa de outro pecado, mas por causa dos seus próprios pecados”. Dos infantes reprovados Calvino diz que “...até mesmo toda a sua natureza é como se fosse uma semente de pecado, e não pode ser de outra forma, senão odiosa e abominável a Deus”.
O genro de Calvino, no entanto, Teodoro Beza (1519-1605), que ensinou por muito tempo na escola de Calvino, em Genebra, e foi um dos professores de Tiago Armínio, definitivamente ensinou a predestinação incondicional supralapsariana. Da mesma forma, ela foi ensinada e promovida na Holanda, na Universidade de Leiden, por um então colega de Armínio, chamado Francisco Gomarus (1563-1641). Ao mesmo tempo, no final do século XVI e início do século XVII, alguns supralapsarianos começaram a ensinar esse ponto de vista de uma forma ligeiramente alterada: supralapsarianismo modificado. Aqui, o ponto de vista é modificado de modo que não há decreto positivo para a reprovação, há apenas um único decreto, através do qual Deus elege alguns, em toda a raça humana, para serem salvos eternamente – e aqueles que foram preteridos, vão para o inferno eterno, simplesmente porque esse é o seu justo merecimento, uma vez que pecaram de uma maneira real, quando Adão pecou (não havendo decreto positivo através do qual Deus os reprove). Isto foi ensinado por alguns, de modo a parecer um pouco mais suave. Os supralapsarianos tinham sido acusados de comprometer a bondade de Deus, ensinando a chamada dupla predestinação, em que há um decreto positivo para reprovação. Dando atenção a essas críticas, eles pensaram que poderiam proteger melhor a bondade de Deus, se eles ensinassem que não havia nenhum decreto de reprovação. A Confissão Belga foi citada, visto que a liberdade humana foi discutida, como razoavelmente ensinando algum tipo de predestinação e afirmando também que os não eleitos simplesmente vão para seu próprio lugar, sem nenhum decreto de reprovação. No entanto, nenhum único teólogo de expressão daqueles tempos ensinou o supralapsarianismo modificado.
Uma quarta visão da predestinação é a predestinação condicional de Tiago Armínio. Armínio ensinava que Deus predestinou cada pessoa para um destino eterno, mas que esta predestinação se baseia no pré-conhecimento de Deus da livre resposta ou livre rejeição do evangelho pelo indivíduo. Esta é às vezes chamada de predestinação de classe: que Deus predetermina que a classe inteira daqueles que crêem livremente está predestinada a ir para o céu, e que está predeterminado que todos aqueles que, embora sendo ajudados pela graça preveniente, rejeitam a Cristo, vão para o castigo eterno.
Depois que Calvino e outros deram tanta importância aos decretos de Deus, Armínio também ensinou os decretos, porém, mudou a ordem dos mesmos. Na sua Declaração de Sentimentos, entregue por ele em 1608, perante as autoridades governamentais em Haia, ele discute a predestinação com cuidado, procurando ganhar a permissão para que o seu tipo de visão pudesse ser promovida nas igrejas, juntamente com os demais pontos de vista. Enquanto os supralapsarianos ensinavam que o primeiro decreto foi salvar e condenar certos indivíduos e que o decreto subseqüente foi criá-los, Armínio ensinava que o primeiro decreto de Deus foi o de enviar Cristo para redimir os pecadores. Ele disse que o segundo decreto de Deus foi receber em graça aqueles que se arrependem e crêem. O terceiro decreto é o da graça preveniente: ajudar a todos a se arrependerem e crerem. O quarto decreto, para Armínio, foi salvar e condenar indivíduos de acordo com o pré-conhecimento de Deus a respeito da maneira pela qual os indivíduos iriam responder livremente à Sua oferta de graça.
É interessante que Armínio sentiu que os decretos eternos, os quais nunca são, evidentemente, mencionados na Bíblia (somente os planos e propósitos de Deus são mencionados), devem fazer parte de um sistema teológico. Eles – os decretos – provavelmente não fazem parte de um tipo de teologia Arminiana. Certa vez, eu sugeri isto a H. Orton Wiley e ele me disse que o Arminianismo realmente necessita de decretos. Mildred Wynkoop, no entanto, tem sugerido o que eu acho que está correto: que os decretos são inadequados para o Arminianismo.
Dr. Carl Bangs mostra em seu estudo importante sobre Armínio que, de muitas maneiras, Armínio tentou ser tão conciliador quanto possível em relação aos Calvinistas de seu tempo, visto que ele ministrava em uma denominação reformada. Isto poderia explicar, em parte, o seu uso de decretos em sua teologia. Outra coisa que poderia ter figurado neste estudo foi a sua proximidade aos Calvinistas: talvez ele estivesse tão perto deles que não teve a perspectiva da distância que nos diz respeito agora e não estivesse completamente afastado dos pontos de vista que ele já havia exposto anteriormente.
Assim, Armínio ensinava que Deus já predestinou algumas pessoas para a felicidade eterna e outros para o tormento eterno, mas que essa predestinação é baseada em Seu pré-conhecimento das suas respostas livres à oferta de graça. Ele ensinava a predestinação condicional ou de classe, ensinava a predestinação individual com base no pré-conhecimento e ensinava os decretos incluindo o seu quarto decreto.
Predestinação Temporal
A doutrina da predestinação a qual tenho ultimamente chegado a pensar a respeito do que certamente é ensinado nas Escrituras, e que me parece ser de modo geral basicamente Arminiana, é a que poderia ser chamada de predestinação temporal. Por isto eu quero dizer o entendimento de que a predestinação não tem a ver com uma pré-decisão de Deus em relação ao destino eterno das pessoas, mas que ela tem a ver com questões temporais as quais Deus graciosamente decide em favor dos crentes – ou seja, só tem a ver com os cristãos.
O verbo para “predestinar”, proorizo, ocorre seis vezes no Novo Testamento, e não há nenhuma palavra equivalente no hebraico do Antigo Testamento. Os exemplos estão em Rm 8.29, 30; Ef 1.5, 11; At 4:28 e 1Co 2.7. A King James Version (KJV) – Versão do Rei Tiago – traduz como “predestinar” apenas nos primeiros quatro desses casos, e como “determinado antes” e “ordenado”, respectivamente nos outros dois casos. A American Standard Version (ASV) – Versão Padrão Americana – a traduz como “pré-ordenar” em todos os seis casos; a Revised Standard Version (RSV) – Versão Padrão Revisada – verte esta palavra como “predestinados” em Rm 8.29, 30; a New American Standard Bible (NASB) – Nova Bíblia Padrão Americana – a traduz como “predestinados” em todos os seis casos e a New International Version (NIV) – Nova Versão Internacional – a traduz como “predestinados” em Rm 8.29 e Ef 1.5, 11, “decidiu de antemão” em At 4.28 e “destinados” em 1Co 2.7.
Isto significa que a palavra grega para “predestinar” é relativamente rara nas Escrituras. No entanto, existem inúmeras palavras com o prefixo “pro” em que elas têm a ver com a pré-decisão de Deus ou do homem para fazer algo em um momento posterior, e elas, pelo menos, se relacionam com a idéia de predestinação ou predeterminação. Palavras que têm a ver com a previsão de acontecimentos posteriores, como no caso dos profetas do Antigo Testamento, também até certo ponto se relacionam com a idéia de predestinação. A preposição “pro” para “antes” é usada muitas vezes no Novo Testamento para se referir ao que Deus fez, prometeu ou planejou antes da criação do mundo (veja Jo 17.5; 1Co 2.7; Ef 1.4; 2Tm 1.9; Tt 1.2; 1Pe 1.20 e Jd 25).
Contrariamente ao que tem sido entendido pela maioria dos cristãos desde o tempo de Agostinho, parece-me que a predestinação na Escritura não tem a ver com o destino eterno. Todas as várias teorias da predestinação: as visões sublapsariana, supralapsariana, supralapsariana modificada e a predestinação condicional de Armínio, se referem à predestinação ao destino eterno. No entanto, nas seis passagens nas Escrituras onde a palavra é usada, o destino eterno não é referido. Em nenhuma das seis passagens nas Escrituras Deus predestinou qualquer pessoa ou qualquer grupo de pessoas (crentes ou descrentes) para a felicidade eterna ou condenação eterna.
Pegue os casos de proorisen em Rm 8.29, 30. Lá, lemos: “Pois aqueles que Deus de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou, e aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”. Aqui, “predestinou”, provavelmente não é usado com referência ao destino eterno – embora, talvez, um caso melhor possível poderia ser feito para tal referência (o destino eterno) no verso 30, do que pode ser feito para essa referência (o destino eterno) em qualquer uma das outras passagens sobre a predestinação. Esta passagem – Rm 8.29 – declara que “aqueles que Deus conheceu de antemão”, significando certamente aqueles que Ele previu que creriam, “também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”. Ou seja, ele pré-determinou que aqueles que crerão serão conformados à semelhança de Cristo. Conformados, aqui, symorphous, é um adjetivo, oriundo de syn (com) e morphe (forma) – e a morphe (forma) provavelmente se refere à essência de algo. A semelhança de Cristo que o Pai predestina para os crentes é, evidentemente, apenas uma semelhança aproximada, do tipo que diz respeito ao que é possível para nós, como seres humanos com nossos erros e finitude. A questão aqui, porém, é que o destino eterno não entra em cena de forma alguma.
Deve também ser percebido que no versículo seguinte – verso 30 – o mesmo tipo de significado (não-destino eterno) provavelmente se obtém. Lá, “aqueles que Ele predestinou” (baseado em seu pré-conhecimento, de acordo com o verso anterior), ele “chamou”, e aos que chamou, “justificou”, e aos que justificou, “glorificou”. Aqui – verso 30 –, ao contrário do que prevalece no verso anterior – verso 29 –, o escritor aponta, finalmente, uma palavra que tem a ver com o destino eterno: a glorificação. Assim, poderia eventualmente ser interpretado que a predestinação tem a ver com o destino eterno – e ela tem, finalmente. Mas o texto declara que, tendo predestinado ou predeterminado para os crentes, através do Seu pré-conhecimento (verso 29), que eles creriam livremente, Ele os chamou e os justificou – e, talvez, por causa do Seu pré-conhecimento de sua persistência como crentes, Ele “os glorificou”. Como mencionado, o destino eterno é referido nesta passagem, mas a referência ao destino eterno está tão dissociada daquilo que é propriamente dito estar predestinado, que esta destinação à glorificação dificilmente pode ser dita que é o que está propriamente predestinado.
Armínio, e os que poderiam ser chamados de Arminianos autênticos, ensinam o pré-conhecimento de Deus de nossos atos – da mesma forma que os Calvinistas. São os Socinianos, desde o início, no Protestantismo, e os que, finalmente, bem poderiam ser chamados de falsos Arminianos (tais como os Personalistas de Boston), que têm negado o pré-conhecimento de Deus. Tanto Arminianos quanto Calvinistas o têm ensinado porque a Escritura seguramente o faz – aqui em Romanos, por exemplo, e nas várias predições bíblicas (especialmente quando as pessoas as cumpriram sem planejarem agir assim, como Judas fez). Assim, em Rm 8.30, Deus prevê que as pessoas vão crer, e no devido tempo, Ele as chama a si de várias maneiras como através da pregação e pela convocação do Espírito. E conforme elas respondem favoravelmente a este apelo, ele as justifica. Em seguida, ainda com base no seu pré-conhecimento (ver verso 29) de que esses indivíduos persistirão como crentes, Ele os glorifica. Aqui Paulo recruta um grande número de seus conceitos teológicos, em uma extensa declaração da predestinação.
Que este não é provavelmente um ensino Agostiniano-Calvinista da predestinação de alguns, dos eleitos por quem Cristo morreu, para a glorificação, é mostrado por outros ensinamentos neste mesmo capítulo de Romanos e em outros escritos Paulinos. Conforme Paulo abre o que temos definido como o capítulo 8, ele afirma que os que não têm “nenhuma condenação” são aqueles entre nós que estão “em Cristo”. Prossegue nos versos 3-4 para dizer que nós que estamos “em Cristo” não estamos simplesmente predestinados, de alguma forma, mas que Deus “condenou o pecado” em si mesmo e em nós, “a fim de que as exigências justas da lei possam ser plenamente reunidas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. E, que os crentes não são predestinados no sentido da segurança eterna, é mostrado pelo que ele pergunta no final do capítulo, depois de fazer as duas referências à predestinação nos versos 29, 30. Ele pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo” (verso 33). Nem a “tribulação”, nem o “sofrimento”, nem “a perseguição”. Nada. É de notar, porém, que estas coisas não serão capazes de nos separar do “amor” de Cristo. Uma pessoa pode, em perseguições ou qualquer outra coisa, cair da graça salvadora como Simão, o Mago fez (At 8.9-24), mas mesmo se alguém cair da graça regeneradora, ele ou ela não está separado do amor de Cristo. Cristo ainda ama mesmo a pessoa apóstata que crucifica Cristo novamente pela sua rejeição de Cristo (confira Hb 6.4-6).
Os dois exemplos de cognatos de proorizo em Ef 1.5, 11 (proorisas, verso 5 e prooristhentes, verso 11) são semelhantes às duas palavras para predestinação em Rm 8.29, 30; elas não dizem respeito ao destino eterno. Em Efésios, temos uma das mais ricas áreas do ensino a respeito da predestinação na Bíblia. Embora apenas duas palavras reais para a predestinação apareçam na epístola, a idéia de Deus ter feito certas decisões pré-determinadas é proeminente. Paulo afirma primeiro que ele é um apóstolo “pela vontade de Deus” (verso 1), o que nos lembra que ele disse em outro lugar que Deus “me separou desde o nascimento e me chamou pela sua graça....” (Gl 1.15).
Então ele diz em Ef 1.4 que “aquele que n’Ele nos escolheu antes da criação [fundação na New American Standard Bible (NASB)] do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante dele”. Assim, antes de criar o mundo, Deus decidiu que aqueles que livremente creriam seriam escolhidos, e que seriam “santos” e “irrepreensíveis”. Nada é dito aqui que tem a ver com o nosso destino eterno. Paulo prossegue com uma palavra mais forte do que “escolhido”. Ele diz no versículo 5 que o que Deus “predestinou”, ou pré-determinou, foi que nós seríamos “adotados como filhos por Jesus Cristo, em conformidade com o beneplácito da sua vontade....” E no verso 11 ele diz: “Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano Daquele que realiza tudo em conformidade com o propósito da Sua vontade, a fim de que nós, que fomos os primeiros a confiar em Cristo, sejamos para o louvor de sua glória”.
Várias coisas devem ser observadas aqui. No verso 5, a predestinação não é para o céu ou o inferno, mas “para serem adotados como seus filhos através de Jesus Cristo.” Isto é, Deus pré-determinou que aqueles que creriam – os crentes sendo mencionados no verso 13 – seriam adotados como Seus filhos. No verso 11, a predestinação, novamente, não é para o destino eterno, mas “a fim de que nós... sejamos para o louvor de sua glória”. O “nós” aqui é provavelmente uma referência ao próprio Paulo, pois suas próximas palavras parecem, em distinção, se referir a seus leitores, quando ele diz, “E vocês também foram incluídos em Cristo”. Novamente, é de notar que eles não foram incluídos quer queira quer não de acordo com uma eleição incondicional. Paulo diz: “E vocês também foram incluídos em Cristo quando ouviram a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação. E tendo nele crido, vocês...” (verso 13). Eles foram incluídos na realidade presente depois de “ouvirem a palavra da verdade” e depois de terem “crido”.
As outras duas das seis passagens do Novo Testamento Grego “para predestinar” precisam ser consideradas. A de Atos 4:28 se lê na New International Version (NIV) – Nova Versão Internacional: “Eles fizeram o que o Seu poder e a Sua vontade haviam decidido de antemão que deveria acontecer”. Esta versão é semelhante à da King James Version (KJV) – Versão do Rei Tiago – em não verter como “predestinar.” A American Standard Version (ASV) – Versão Padrão Americana – [e a Revised Version (RV) – Versão Revisada] verte “pré-ordenar” aqui como em todas as seis passagens para “predestinar” (proorizo). A Revised Standard Version (RSV) – Versão Padrão Revisada – verte “predestinar”.
O exemplo de um cognato de proorizo, “predestinar”, aqui, proorisen, não tem a ver com uma predestinação para um ou outro dos dois destinos eternos. Pedro e João haviam sido liberados pelas autoridades, e quando eles tinham ido “para seu próprio povo” (verso 23), estes crentes louvaram a Deus porque “elas”, as autoridades, “fizeram o que o poder e vontade de Deus decidiram de antemão que devia acontecer”. A predestinação, portanto, tinha a ver com a pré-decisão de Deus, baseada em seu pré-conhecimento, de que os apóstolos iriam sair livremente, sendo permitido assim ser feito pelas autoridades. O que quer que seja, nada é dito ou implícito que tenha a ver com o destino eterno.
Na passagem de 1Co 2.7, onde a mesma forma da palavra predestinação aparece, proorisen, a New International Version (NIV) – Nova Versão Internacional – diz: “Agora falamos da sabedoria secreta de Deus, uma sabedoria que estava oculta e que Deus destinou para nossa glória antes do começo dos tempos”. A King James Version (KJV) – Versão do Rei Tiago – traz aqui “decreta” como faz a Revised Standard Version (RSV) – Versão Padrão Revisada –, porém a New American Standard Bible (NASB) – Nova Bíblia Padrão Americana – verte “predestinou”. Novamente, ela não se refere a um dos destinos eternos. Paulo está simplesmente dizendo que ele e outros “falam uma palavra de sabedoria entre os maduros [perfeitos]” (verso 6), “que estava escondida” – e que esta palavra “Deus destinou”, ou predestinou, “para nossa glória antes do começo dos tempos” (verso 7). A passagem mostra que Deus planejou oferecer o evangelho antes mesmo dele criar o homem, como Armínio ensinava, ao qual Armínio chamou de primeiro decreto de Deus, e que era o de enviar Cristo. O que implica no pré-conhecimento de Deus de que nós, seres humanos, pecaríamos e necessitaríamos de redenção. Ela nada tem a ver com uma pré-decisão para dar o céu a alguns indivíduos e o inferno a outros.
Além destes seis exemplos de cognatos de proorizo no Novo Testamento (não havendo nenhuma palavra equivalente no Hebraico do Antigo Testamento), existem, como mencionado anteriormente, numerosas palavras na Bíblia Grega e Hebraica com o prefixo “pro” e que se relacionam com o que ou Deus ou o homem decidem fazer antes do tempo. No entanto, em nenhuma delas que eu tenho checado indica que Deus pré-decide o destino individual.
Além disso, o que está aqui sendo chamada predestinação temporal não tem a ver com os decretos do destino eterno, ou com o que muitas vezes são chamados decretos inalteráveis do destino eterno – não obstante Armínio e Wiley pensem assim. Embora a Escritura fale freqüentemente de “decretos” e “editos” de “um rei ou um grupo governante,” e de serem inalteráveis como no caso daqueles dos Medos e dos Persas (confira Ed 6.11; Et 8.8 e seguintes; Dn 6.8) – os quais raramente falam de Deus fazendo decretos de qualquer tipo. E quando isso acontece, não são decretos relativos ao destino eterno. Eles simplesmente têm a ver com Suas deliberações. Assim, lemos: “Então o Senhor fez um decreto e uma lei para eles, e lá Ele os testou” (Êx 15.25). Aqui o decreto de Deus é simplesmente uma lei, como os reis freqüentemente fazem. Assim, lemos que um decreto é o mesmo que um pacto:
Ele se lembra de Sua aliança para sempre
A palavra que Ele ordenou, por mil gerações,
O pacto que fez com Abraão,
O juramento que fez a Isaque.
Ele a confirmou a Jacó por decreto (1Cr 16.15-17).
Em outro raro exemplo de um decreto quando relacionado a Deus, mais uma vez é simplesmente uma decisão de Sua vontade. Lemos: “Embora conheçam o justo decreto de Deus que aqueles que fazem tais coisas merecem a morte, não só continuam a fazer estas mesmas coisas, mas também aprovam os que as praticam” (Rm 1.32). Aqui, a decisão não é arbitrária, inescrutável, e misteriosa, através da qual o destino é decidido sem levar em conta as ações do indivíduo. Ela diz respeito “àqueles que fazem tais coisas”, quais são referidas na lista de pecados recém-mencionada nos versos 29-31. Deus decreta uma “catástrofe” (1Re 22.23, 2Cr 18.22, Jr 40.2), uma fome (2Re 8.1), e outras questões deste tipo, mas os decretos são simplesmente Suas decisões, ou Seus acordos, e eles normalmente anunciam o que vai acontecer na terra, consoante à obediência ou desobediência das pessoas.
Portanto, a predestinação, segundo o que me parece finalmente revelada, não tem nada a ver com o destino eterno, e as poucas referências bíblicas aos decretos de Deus não se referem a qualquer tipo de destino. Tanto a predestinação quanto os decretos (e várias outras pré-decisões da parte de Deus) têm a ver com a vida presente dos crentes.
Assim, a predestinação, segundo as Escrituras, não tem nada a ver com o destino eterno, mas com questões temporais. Além disso, até mesmo as pré-decisões de Deus, onde cognatos de proorizo não aparecem, não têm nada a ver com o destino eterno – nem a ver com os decretos de Deus.
Esses entendimentos aos quais eu cheguei recentemente são apenas adotados provisoriamente, no momento presente. Considero tanto a igreja em seus longos debates teológicos que não me precipito concluir que as diversas opiniões de teólogos sobre a predestinação, por muitos séculos, estavam todas incorretas. Mas esta é a maneira na qual eu me encontro vendo esta matéria no presente momento, assim como estou aberto a ser ensinado de forma diferente pelas interpretações dos meus pares – irmãos e irmãs – que podem tomar a caneta na mão, e da mesma forma, no Wesleyan Theological Journal – Jornal Teológico Wesleyano –, apontarem para mim os meus erros.
Tradução: Cloves Rocha dos Santos
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