Nov
01
2009
Justificação pela Fé - Nova Perspectiva Imprimir E-mail
Artigos - N. T. Wright

Justificação pela Fé - Nova Perspectiva

 

N. T. Wright

 

Como é então que a “justificação pela fé” se opera? Em Romanos 2, Paulo já falou da justificação definitiva do povo de Deus, com base em toda a sua vida. Esta justificação ocorrerá no final, quando Deus julgar os segredos de todos os corações através do Messias. A questão da justificação pela fé é que, como Paulo insiste em 3.26, esta justificação tem lugar no presente, em oposição ao último dia. Esta questão tem a ver com as perguntas: “Quem pertence hoje ao povo de Deus?” e “Como se pode afirmar?” A resposta é: todos os que crêem no evangelho pertencem ao povo de Deus hoje, e, portanto, não importa quem tenham sido os pais, ou como se obedeceu à Torá (ou a qualquer outro código moral), ou se foi aplicada ou não a circuncisão. Para Paulo, a justificação é um subconjunto da eleição, isto é, faz parte de sua doutrina sobre o povo de Deus.

 

Sem dúvida, apesar de muitos esforços para impor esta conclusão, não quer dizer que a justificação nada tenha a ver com a salvação dos pecadores, do pecado e da morte pelo amor e pela graça de Deus. A eleição sempre supõe que os seres humanos são pecadores, que o mundo jaz no caos e que Deus está montando uma operação de resgate. Esta é a finalidade da aliança, e por isso é que “pertencer à aliança” significa, entre outras coisas, “o perdão do pecador”. O que se prova é que a “justificação” em si não denota o processo ou o acontecimento pelo qual a pessoa é conduzida da descrença, da idolatria e do pecado para a fé, a verdadeira adoração e a renovação da vida, por obra da graça. Paulo emprega uma palavra clara e inequívoca neste sentido: ele fala de “chamado”. A palavra “justificação”, apesar de uso equivocado do termo pelos cristãos durante séculos, é empregada por Paulo para denotar o que acontece imediatamente depois do “chamado”: “aos que chamou também justificou” (Rm 8.30). Em outras palavras, aqueles que ouvem o evangelho e a ele respondem na fé são, assim, declarados por Deus seu povo, seus eleitos, “a circuncisão”, “os judeus”, “o Israel de Deus”, distinguidos com a condição de dikaios, “justos, participantes da aliança”.

 

Mas a palavra “chamado” por si mesma e o fato de que a “justificação” não se refere ao modo “como sou salvo”, mas ao modo “como sou declarado membro do povo de Deus”, devem sempre abranger também os planos maiores da aliança. Na verdade, o esquecimento deste ponto, como tantas vezes ocorreu na teologia ocidental, tanto do catolicismo como do protestantismo, equivale a incidir no erro bem parecido pelo qual Paulo censura seus concidadãos. O objetivo da aliança era enfrentar a idolatria e o pecado para que o mundo como um todo pudesse ser resgatado, e não se discute, como lemos em Romanos 5-8, que é para este objetivo que Paulo encaminha seu argumento. Assim, a idéia dos seres humanos chamados pelo evangelho a abandonarem a idolatria e o pecado a fim de passarem a adorar o Deus vivo e verdadeiro significa por um lado, que eles podem ser resgatados e, por outro lado, que através deste resgate e pela comunidade que passam a formar poderá concretizar-se o plano de Deus de resgatar o mundo inteiro. É por esta razão que em Rm 5.17 Paulo diz que os justificados “reinarão na vida”; o objetivo não é simplesmente que eles sejam resgatados da calamidade, mas que através deles Deus possa governar sua nova criação. É por esta razão também que a união de judeus e gentios em uma única família é uma idéia essencial para a justificação. Não se trata unicamente de tornar a vida mais fácil para os gentios convertidos aos quais podia não agradar a idéia da circuncisão, como alguns comentaristas já afirmaram, tentando ridicularizar a “nova perspectiva”, mas, como Paulo explica tão brilhantemente em Efésios 3, o que se pretende inculcar é que pela criação da família formada de judeus mais gentios o Deus vivo possa implantar o projeto completo da nova criação, declarando aos principados e potestades que sua hora já chegou. A eleição repensada em torno do Messias, e reelaborada por Paulo em seus esforços apostólicos para gerar e sustentar exatamente este tipo de comunidade, mantém juntos elementos de seu pensamento que muitos séculos de sistemas alternativos mantiveram separados.

 

Extraído de Paulo – Novas Perspectivas, pp. 151-153

 
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Artigos - Ed René Kivitz

O Deus Esvaziado

Baseado na Parábola dos Filhos Perdidos

Lc 15.11-32

 

Ed René Kivitz

 

Você pode fazer teologia de cima para baixo e de baixo para cima. Caso escolha fazer de cima para baixo, terá a companhia de todos os filósofos, especialmente os gregos, que se fixaram numa idéia de perfeição de Deus, e deram toda ênfase aos atributos incomunicáveis de Deus: onipotência, onisciência e onipresença, por exemplo (Jó 42.2; Sl 139; Is 43.13; Lc 18.27). Todos os que olham para Deus através desse paradigma imaginam Deus num alto e sublime trono (Is 6.1), habitando em luz inacessível (1Tm 6.16) e, invocado mediante a oração da fé, vem ao mundo fazer coisas boas (milagres) para seus filhos. Não há nada de errado nesta descrição de Deus.

 

Mas você também pode fazer teologia de baixo para cima. Nesse caso, você deverá deixar de lado aquilo que Deus é em termos de sua perfeita natureza eterna, e focar sua atenção na maneira como Deus escolheu se revelar e se relacionar com as pessoas na história. Seus olhos devem deixar de lado a visão ideal e abstrata da filosofia, e se voltar para Jesus Cristo, suas ações e palavras, que revelam o Pai (Jo 10.30; 14.9).

 

A Bíblia ensina que Jesus é Deus esvaziado, Deus em forma humana, em forma de servo (Fp 2.5-8). Jesus é Deus conosco, isto é, Deus se revela e se relaciona conosco em Jesus (Jo 1.14, 18; Hb 1.1-3). Em Jesus, Deus está esvaziado, pois sua onipotência foi limitada pela fé dos que a ele se achegavam (Mt 13.53-58), sua onisciência foi limitada pelo Pai (Mt 24.36), e sua onipresença foi limitada pela própria encarnação.

 

A expressão Deus esvaziado não diz respeito à natureza de Deus. Deus é o mesmo, tanto no alto e sublime trono como encarnado na pessoa de Jesus. Mas a maneira como Deus se relaciona no céu é diferente da maneira como se relaciona na terra. No céu Ele faz tudo quanto lhe agrada e reina soberano. Na terra Ele age em e com as pessoas que atendem seu convite para a comunhão em seu Filho: “venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim na terra como no céu” (Sl 115.3, 16; Mt 6.10; 1Co 1.9). Isso fica mais claro quando compreendemos os critérios segundo os quais Deus escolheu se relacionar com seus filhos, conforme Jesus ensina na “parábola dos filhos perdidos” (Lc 15.11-32).

 

Em primeiro lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da liberdade. O filho mais novo pede a sua parte da herança e vai embora da casa do pai. Naquela época e cultura, o pedido equivaleria a dizer mais ou menos o seguinte: “Pai, tudo o que quero é que o senhor morra. Tudo o que me interessa é seu talão de cheques”. O impressionante é que o pai não faz oposição a esse desejo do filho. O critério é a liberdade: “Você quer ir, meu filho, eu lamento, mas não vou amarrar você ao meu lado, não vou obrigar você a conviver comigo contra a sua vontade. Siga seu caminho”.

 

O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força, mediante manifestação do seu poder e imposição de sua autoridade soberana. O Deus esvaziado dá um passo atrás, para que você possa exercer sua liberdade de existir com Ele ou contra Ele.

 

Em segundo lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da interpelação. O filho mais velho se recusa a participar da festa que o pai promove para se alegrar com o retorno do filho mais novo, que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai vai ao encontro do filho mais velho e o interpela, o confronta e o coloca diante da necessidade de uma decisão. Mas não decide por ele, nem o obriga a se submeter à sua vontade.

 

O pai não exige obediência dizendo “Enquanto você estiver na minha casa fará as coisas do meu jeito”. O pai confronta o filho e espera tocar sua consciência, para que, semelhantemente ao filho mais novo, ele também “caia em si”, e experimente uma transformação de dentro para fora, de modo que sua submissão à vontade do pai seja um ato voluntário e consciente de ser a melhor escolha.

 

Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao seu Filho (Rm 8.28-30; 2Co 3.18; Gl 4.19; Ef 4.11-13).

 

Quem espera uma vida melhor como resultado da intervenção do Deus onipotente, onipresente e onisciente, acaba se frustrando e sucumbindo em culpa e incredulidade. Quem espera ser uma pessoa melhor e andar em comunhão com Deus, numa relação de amor e liberdade, respondendo suas interpelações e desfrutando sua presença e doce companhia é capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela.

 
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