Mar
12
2010
Crítica a Clark H. Pinnock Imprimir E-mail
Artigos - Jack Cottrell

Crítica a Clark H. Pinnock[1],

“Eleição Divina como Corporativa, Aberta e Vocacional”[2]

 

Jack Cottrell

 

Pinnock e eu concordamos sobre alguns dos aspectos mais fundamentais da doutrina da predestinação. Considerando a natureza humana, nós aceitamos a visão geral arminiana do livre-arbítrio libertário, em oposição ao Agostinianismo. Ambos aceitamos a universalidade do amor de Deus, da vontade salvífica de Deus e da chamada do evangelho (Jo 6.44). Nós compartilhamos a mesma crítica básica da visão agostiniana, isto é, que ela faz de Deus no fim das contas responsável pela perdição do perdido, torna sem sentido a afirmação bíblica da vontade salvífica de Deus (por exemplo, 1Ti 2.4; Tt 2.11; 2Pe 3.9), e distorce a natureza do amor de Deus.

 

Eu acredito que Pinnock está correto quando ele interpreta muito do ensino bíblico sobre a predestinação em termos de eleição corporativa e vocacional. Este tema está definitivamente presente, por exemplo, em Romanos 9. Mas eu rejeito a tese central de Pinnock de que a eleição bíblica é corporativa e vocacional à exclusão prática da predestinação individual para salvação e condenação. O ensino da Bíblia sobre este assunto não é um problema de “ou/ou”, mas “ambos/e”.

 

[Quando Pinnock diz que a eleição é corporativa, ele quer dizer que seu objeto primário é um grupo delineado de indivíduos, independente de quaisquer indivíduos específicos possam acontecer de pertencer a ele num determinado momento. A unidade predestinada é o grupo, não o indivíduo. Na Escritura as principais unidades são a nação de Israel e a igreja no Novo Pacto.]

 

Quando Pinnock diz que a eleição é vocacional, ele quer dizer que o grupo é primariamente escolhido para cumprir uma missão ou tarefa particular no estágio da história. Deus está trabalhando o seu propósito redentor dentro da história, e ele escolhe [(elege)] primeiro Israel e então a igreja como seus instrumentos para alcançar este propósito. Algumas vezes indivíduos particulares são escolhidos para papéis específicos neste drama (por exemplo, Abraão, Jacó, os apóstolos), mas isto afeta somente seu serviço aqui na terra, não seu destino eterno. Considerando a eleição individual para salvação ou condenação, Pinnock claramente diz, “Eu não encontro a Bíblia ensinando tal crença”. Na verdade, ele observa, “A eleição não é acerca do destino de pessoas individualmente para salvação ou condenação, mas acerca do chamado de Deus de um povo que... proclama as boas novas ao mundo”.

 

[Assim, como Pinnock a vê, a tarefa para a qual estes grupos foram eleitos e chamados é a proclamação da vontade salvadora de Deus e do seu plano para as outras nações e povos da Terra, com a finalidade de que todas as pessoas possam ser finalmente salvas. Isto é, “a eleição na Bíblia tem a ver com a estratégia de Deus para a salvação de todas as nações”.]

 

Tenho duas observações principais a respeito da abordagem de Pinnock. Primeira, sua rejeição da predestinação de indivíduos para salvação (e condenação) é uma implicação necessária de sua negação do pré-conhecimento de Deus das escolhas do livre-arbítrio humano. Qualquer um que aceita a realidade do verdadeiro livre-arbítrio e ao mesmo tempo nega o conhecimento prévio de Deus das escolhas feitas por meio dele, deve também rejeitar a predestinação individual. Sem pré-conhecimento, Deus não pode saber de antemão quais indivíduos exatamente irão existir, muito menos ter qualquer base para predestiná-los ou ao céu ou ao inferno. Por outro lado, se o pré-conhecimento divino das escolhas do livre-arbítrio humano é um fato, então a eleição individual é inescapável.

 

A negação de Pinnock do pré-conhecimento divino exaustivo tem sido claramente declarada em outros lugares.[3] Neste presente ensaio Pinnock reafirma a sua visão: “Eu confesso, também, ter dificuldade de crer que Deus possui completo pré-conhecimento do que os humanos farão com a sua liberdade (libertária)”. Afirmando a abertura, ele diz, “Muito acerca do futuro é ainda incerto. Ele aguarda pelos agentes para ter sua ‘palavra’”. Especialmente, é “uma questão aberta exatamente quais indivíduos finalmente [serão salvos] e quais não”. “Deus sabe que alguns irão responder, mas não (eu afirmo) exatamente quem”.[4]

 

Concordo com Pinnock acerca da realidade do livre-arbítrio libertário, mas eu discordo fortemente da sua visão do pré-conhecimento divino. A realidade do pré-conhecimento divino é claramente ensinada na Bíblia,[5] assim como é sua conexão com a predestinação.[6] Em oposição a Pinnock, Rm 8.29 não pode ser reinterpretado em termos de predestinação corporativa. O resultado da predestinação neste verso é conformidade com a semelhança de Cristo, o que neste contexto (versos 11 e 23) se refere à concessão de um corpo glorificado no céu, como indicado pela referência a Cristo como o “primogênito”, isto é, “dos mortos” (Cl 1.18).[7] Isto é melhor entendido em termos de indivíduos.

 

[Pinnock diz que Rm 8.29 não pode referir ao conhecimento prévio, visto que tal pré-conhecimento envolveria incrédulos bem como crentes e que os primeiros não são certamente chamados, justificados e glorificados (verso 30). Assim o pré-conhecimento em Rm 8.29 deve referir ao pré-amor divino das pessoas como um grupo, não um conhecimento prévio de indivíduos. Entretanto, o contexto de Rm 8.29 mostra que todos aqueles pré-conhecidos são equivalentes “àqueles que amam a Deus” no verso 28; veja a idéia paralela em 1Co 8.3. Assim, qualquer outra coisa que pode estar incluída no “pré-conhecimento” do verso 29, não existe razão para excluir o conhecimento prévio.[8]]

 

Pinnock rejeita a eleição individual baseada no pré-conhecimento porque ele diz que ela é contrária à salvação pela graça. Se “a eleição divina repousa sobre o pré-conhecimento de Deus das futuras escolhas livres dos seres humanos”, isto significa simplesmente que “Deus endossa nossa própria auto-eleição”; e “isto torna a eleição divina em um ato humano de auto-eleição”. Isto banaliza a eleição, retratando Deus como que “esperando para carimbar as decisões humanas”. Isto resulta em que “o pré-conhecimento compromete o caráter gracioso da eleição”.

 

[O problema com esta análise é este: se válida, ela se aplica a todas as visões do livre-arbítrio (condicional) a respeito da salvação, seja a escolha livre individual pré-conhecida ou pós-conhecida. Tais caracterizações da salvação (sinergística) condicional são, entretanto, uma injustificada caricatura.]

 

Minha segunda observação principal a respeito da abordagem de Pinnock é que ele tenta justificar sua visão de eleição como corporativa e vocacional fazendo a eleição divina de Israel como um paradigma para todas as formas de eleição, incluindo a de Cristo e da igreja. Isto, entretanto, é em meu julgamento um sério erro. A predestinação divina de Israel não é tal paradigma.

 

[A explicação de Paulo a respeito da eleição como corporativa e vocacional realmente começa com a chamada de Abraão, especialmente conforme declarada em Gn 12.3, “E em ti todas as famílias da Terra serão abençoadas”. Este propósito se estende a Israel como uma nação, cuja eleição Pinnock apropriadamente entende (à luz de Romanos 9) que é “fundamentalmente corporativa” e vocacional.]

 

Deste ponto em diante, entretanto, o entendimento da eleição de Pinnock torna-se em minha opinião cada vez mais bizarro e seriamente não bíblico. Ele descreve o chamado e uso de Deus de Israel como um experimento que, infelizmente não funcionou.[9] Isto explica por que Jesus veio, a saber, para continuar a perseguir o mesmo propósito para o qual Israel foi escolhido, porém no qual ele falhou. “O Filho fiel do Pai está conduzindo a missão de Israel adiante”. “O ponto e significado da eleição de Israel deve agora ser encontrado em Jesus de Nazaré”. Jesus é a próxima e “decisiva fase no caminho que tem sido seguido por séculos”, uma “continuação do caminho que Deus tinha ido com Israel anteriormente”. A meta de Cristo, como a de Abraão e Israel, é trazer todas as nações da terra para uma comunidade mundial na qual todos juntos irão compartilhar das bênçãos do pacto de Deus.

 

[Isto explica por que a eleição da igreja nos tempos do Novo Pacto é corporativa e vocacional. A igreja está simplesmente realizando o propósito original conforme declarado a Abraão em Gn 12.3, como tentado de forma vã por Israel e como retomado por Cristo. A igreja agora substitui Israel como um grupo ou comunidade através do qual todas as nações virão a conhecer a Deus. Crentes do Novo Testamento são eleitos “Nele” (Ef 1.4), isto é, eles participam na própria eleição de Cristo, tendo em vista a realização da “transformação do mundo”.

 

Assim, ele faz com que todos os objetos de eleição se ajustem dentro do mesmo molde: Abraão, Israel, Cristo e a igreja. A eleição de Israel é dessa forma o modelo para a eleição da igreja. Assim como a nação corporativa de Israel foi “chamada para ser uma testemunha a cada uma das nações”, a igreja como um corpo é chamada “para reconciliar as nações com Deus”. Assim, “os fundamentos da doutrina da eleição como corporativa e vocacional são estabelecidas no Velho Testamento”.]

 

Neste breve espaço só posso começar apontando como extremamente errado para mim é este conceito de eleição. Primeiro, eu acredito que ele deturpa o pacto que Deus fez com Abraão como algo que poderia ser estendido para além da real vinda de Jesus e aplicado à igreja sob o Novo Pacto. Por quais meios Abraão e seus descendentes deviam ser uma benção a todas as famílias da terra? Por um meio apenas, a saber, que através deles o Salvador de toda a humanidade viria ao mundo. A vinda de Jesus era o cumprimento do pacto com Abraão (At 13.33). O pacto e vocação abraâmicos foram cumpridos; eles não se aplicam à igreja.

 

Segundo, o mesmo se aplica a Israel como uma nação. O que é verdadeiro de Abraão é verdadeiro de Israel como tal. Israel tinha um único propósito, isto é, preparar a primeira vinda do Messias. Nem Abraão nem a nação de Israel foram escolhidos para pessoalmente pregar Deus às outras nações do mundo. Quando Jesus veio, a vocação nacional de Israel foi cumprida (Rm 9.5; Gl 3.28; Cl 3.11).

 

Terceiro, e talvez mais seriamente, a visão de Pinnock da eleição de Cristo ameaça seriamente a singularidade e efetividade da obra salvadora de Cristo. Dizer que Jesus assumiu a missão que Israel havia falhado (como Pinnock a entende) é dizer que sua principal obra foi epistemológica, isto é, revelar e proclamar. Seguramente isto diminui o papel da sua morte e ressurreição. A questão mais séria, é claro, é esta: se a experiência com Israel não tivesse falhado, a vinda, morte e ressurreição de Cristo teriam sido de alguma maneira necessárias? Isto parece está implícito na argumentação de Pinnock, especialmente em declarações como esta: “A necessidade do papel [de Cristo] surgiu a partir do fracasso de Israel e do fato de que alguma coisa mais tinha de ser feita se o objetivo devesse ser atingido, ou seja, o alcance das nações”.

 

[Quarto, assim como é errado ver continuidade entre a eleição de Israel e a eleição de Cristo, da mesma forma é errado ver continuidade entre a eleição de Cristo e a eleição da igreja. A igreja é eleita “em Cristo” certamente, mas isto não significa que o propósito para a eleição dele é simplesmente passado adiante para nós. Significa que o fruto da missão para a qual ele foi escolhido, isto é, realizar a salvação, é concedido a todos os indivíduos que a aceitam nos termos dele.]

 

[Quinto] Quarto e finalmente, a idéia inteira de que a predestinação como ela é aplicada aos cristãos na era do Novo Pacto é simplesmente uma continuação da eleição corporativa e vocacional da nação de Israel sob o Velho Pacto é baseada sobre um falso entendimento da relação entre Israel e a igreja. Deus propôs usar o Israel nacional para preparar a primeira vinda de Cristo. Esse propósito foi alcançado e esse pacto terminou.[10] A igreja tem uma certa continuidade com Israel (Rm 11.17-24), mas ela simplesmente não toma o lugar de Israel e continua a sua vocação. A continuidade da igreja com Israel não é com a nação como tal, mas com o “Israel dentro do Israel“ como está em Rm 9.6.

 

Um entendimento correto de Romanos 9 conduziria na direção de resolver essa questão inteira. Eu acredito que os agostinianos estão errados ao dizer que este capítulo refere à eleição incondicional para salvação e então usá-lo como um paradigma para a doutrina da predestinação como tal. Porém, eu acredito que Pinnock está igualmente errado ao (corretamente) dizer que ele é sobre a eleição da nação de Israel (juntamente com alguns indivíduos dentro dele) para vocação ou serviço e então igualmente usá-lo como um paradigma para a doutrina da predestinação como tal.

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos



[1] Clark H. Pinnock (nasceu em 1937), Professor Emérito de Interpretação Cristã no McMaster Divinity College, Hamilton, Ontario, é um teólogo evangélico e primeiro proponente do movimento da Abertura de Deus. Pinnock recebeu seu Ph.D. em Novo Testamento na Manchester University em 1963 sob a orientação de F. F. Bruce. Originalmente um calvinista,  Pinnock migrou para uma teologia geral arminiana. De 1969 a 1974 ensinou na Trinity Evangelical Dinity School, Deedfied, Illinois e de 1974 a 1977 no Regente College em Vancouver. Ele ensinou no McMaster Divinity College desde 1977 até a sua aposentadoria em 2002. Ele é autor de numerosos livros incluindo A Wideness in God’s Mercy – Uma Abrangência na Misericórdia de Deus (1992), co-editou The Openness of God – A Abertura de Deus (1994), e Most Moved Mover: A Theology of God's Openness – O Motor Mais Movido – Uma Teologia da Abertura de Deus (2001). Em adição ao seu controverso Teísmo Aberto, Pinnock defendeu o aniquilacionismo em oposição ao inferno eterno e um inclusivismo em que o Cristianismo é a única verdade, mas pessoas de outros credos podem ser salvas sem a crença explícita em Jesus Cristo. (fonte: http://www.theopedia.com/Clark_Pinnock).

[2] Este artigo é uma réplica de Jack W. Cottrell ao ensaio de Clark H. Pinnock intitulado: Divine Election as Corporate, Open and VocationalEleição Divina como Corporativa, Aberta e Vocacional, que se encontra no capítulo 9 (páginas 276-314) do livro Perspectives on Election: Five Views Perspectivas sobre a Eleição: Cinco Pontos de Vista, B&H Publishing Group, Editado por Chad Owen Brand, para o qual os dois autores foram colaboradores. Este artigo se encontra no capítulo 10 do mesmo livro intitulado: Responses to Clark H. PinnockRespostas a Clark H. Pinnock, a partir da página 315. Os textos entre colchetes não fazem parte do livro original, mas foram enviados à Editora por Jack Cottrell, que, por motivo de espaço, não os inseriu.

[3] Por exemplo, Clark Pinnock, Most Moved Mover – Motor Mais Movido  (Grand Rapids: Baker, 2001), 48-49.

[4] Sem pré-conhecimento, como pode Ele realmente saber que até mesmo alguns irão responder?

[5] Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé Uma Vez por Todas  (Joplin, Mo.: College Press, 2002), 85-87.

[6] Idem, 394-398.

[7] Veja Jack Cottrell, The College Press NIV Commentary: Romans - Romanos (Joplin, Mo.: College Press, 1996), I:503.

[8] Idem, 504-505.

[9] A ausência do pré-conhecimento de Deus seria um fator mais importante aqui.

[10] Pinnock está seriamente errado ao dizer que o Velho Pacto com Israel ainda continua “como se Jesus não tivesse vindo” e que “Deus não anulou o seu pacto com os judeus”. O que será que aconteceu com o livro de Hebreus? E Gl 3.28? E Cl 3.11?

 
Mar
10
2010
Objetivo das Parábolas Imprimir E-mail
Artigos - Grant R. Osborne

Objetivo das Parábolas

 

Grant R. Osborne

 

A Espiral Hermenêutica, pág. 375-377

 

Nos Evangelhos, uma das seções de parábolas mais difíceis de compreender é justamente a única que delineia de modo claro o seu “objetivo”: Mc 4.10-12 (Mt 13.10-15; Lc 8.9-10), e ainda assim oferece uma perspectiva muito negativa:

 

A vós é confiado o mistério do reino de Deus, mas tudo se diz por meio de parábolas aos de fora, para que, vendo, vejam e não percebam; e ouvindo, ouçam e não entendam, para que não se convertam e sejam perdoados (Mc 4.11-12).

 

Os intérpretes modernos se deparam com uma grande dificuldade em aceitar uma declaração que sugeria que Jesus usava parábolas para esconder as verdades do reino aos incrédulos. Linnemann, por exemplo, afirma que isso só poderia ter sido acrescentado posteriormente por uma igreja em conflito absoluto com oponentes judeus (1966). Outros argumentam que Marcos formulou a narrativa como parte de seu “segredo messiânico”: sua visão de que Jesus desejava esconder a verdadeira identidade. Algo que é conveniente, mas pouco convincente. Frank Kermode alega que isso forma o próprio cerne da pregação enigmática de Jesus, que tanto esconde quanto revela (1979:25-47). O “mistério” do evangelho produziu o enigma.

 

Uma das chaves é o uso de hina em Marcos 4.12, indicando um propósito, e o uso de hoti em Mateus 13.13, indicando causa ou razão. Essa aparente contradição é muito similar à chamada contradição entre Paulo e Tiago sobre fé e obras. Paulo diz que as obras não podem produzir a salvação, enquanto Tiago diz que obras são a prova necessária da salvação. Trata-se dos dois lados da mesma moeda. O mesmo é verdadeiro aqui. Outra chave é o uso de Isaías 6.9-10 por Jesus. Isaías 6 registra o chamado de Isaías para o serviço. Nesse momento, ele vê o Deus santo exaltado em seu trono, cercado por serafins, e o Senhor lhe ordenando a comunicação de uma mensagem que será rejeitada pela nação rebelde e apóstata. Jesus entende ser idêntica a situação da geração presente: do mesmo modo que o Israel antigo, o povo vê a obra de Deus em Jesus, mas não a percebe; ouve as palavras de Jesus, mas não as compreende.

 

Em resumo, Marcos 4.10-12 e Mateus 13.13-15 indicam claramente que Jesus escolheu fazer uso da forma parábola para simbolizar o julgamento de Deus sobre seus oponentes e sobre um povo descrente. Muitas vezes, Jesus usou as parábolas não pelo desejo de comunicar uma verdade, mas de esconder a verdade de ouvintes desinteressados. As parábolas confirmavam os incrédulos em sua rejeição. Contudo, devemos fazer uma outra pergunta: era esse o objetivo do uso da forma parábola ou um dos objetivos? Na superfície, é como se para Jesus as parábolas fossem um mecanismo antievangélico! Uma das chaves para se determinar um dogma a partir das Escrituras é rejeitar a prova textual (ou seja, determinar uma doutrina a partir de declarações isoladas, em vez do conjunto das Escrituras). Dois fatores nos obrigam a buscar outras evidências: a citação em estudo é encontrada dentro das parábolas de conflito-rejeição em Marcos 4 e Mateus 13, e, portanto, ocorre num contexto limitado, e as parábolas definitivamente desafiavam e instruíam os discípulos (como a parábola do credor [Lc 7.40-43], as parábolas do Sermão das Oliveiras [Mt 24.32-25.46], as do discurso de despedida [Jo 14.2-3, 6; 15.1-8; 16.21-22]), e também desafiavam as multidões e até mesmo os fariseus a responder (como as parábolas sobre procurar o que está perdido [Lc 15] e o bom samaritano [Lc 10]).

 

Parece claro que Jesus tinha, de fato, um objetivo maior ao usar a parábola. As parábolas são um “mecanismo de confrontação” e funcionam de modos diferentes dependendo do público. Nas controvérsias com os líderes e com o Israel incrédulo, uma grande parte desse objetivo era esconder a verdade deles. Esse era um julgamento divino sobre o Israel teimoso, comparável ao julgamento do faraó e ao da nação apóstata no tempo de Isaías. Em consequência à rejeição que dedicavam à mensagem de Jesus, Deus endureceria ainda mais o coração deles por meio das parábolas. No entanto, tal sinal negativo era parte de um objetivo maior, que tinha raízes no uso das parábolas na literatura sapiencial do AT: desafiar o povo e suscitar-lhe uma resposta (como a parábola de Natã para Davi em 2Sm 12). De fato, aqui é válido o termo “performativo” aplicado às parábolas pela Nova Hermenêutica (Funk 1966:193-196). As multidões são forçadas a tomar uma decisão pró ou contra Jesus, enquanto os discípulos são desafiados e ensinados pelas parábolas. Cada grupo (líderes, multidões, discípulos) é tocado de um modo diferente por essas histórias, o que fica evidente na rejeição dos líderes, no desafio à multidão para que se decida e no empenho exigido aos discípulos a pensar de forma mais profunda sobre a realidade do reino.

 

As parábolas encontram, interpretam e convidam o ouvinte/leitor a participar da nova visão de mundo do reino de Jesus. Trata-se de um “acontecimento discursivo”, um desafio ilocutório e um encontro perlocutório que jamais nos permite ficar neutros: elas prendem a nossa atenção e nos forçam a interagir com a presença do reino em Jesus, seja de modo positivo (aqueles “em volta de” Jesus em Mc 4.10-12) ou negativo (os “de fora”). Os estudiosos estão começando a concordar que Mateus 16.19 e, em especial, João 20.23 (“Se perdoardes os pecados de alguém, eles lhe serão perdoados; se os retiverdes, eles lhe serão retidos”) se referem principalmente à proclamação das verdades divinas: o ouvinte deve responder, e essa resposta leva ou à salvação ou ao julgamento. Algo que se aplica muito à parábola. Para aqueles que rejeitam a presença de Deus em Jesus (os líderes dos judeus), a parábola se torna um sinal de julgamento soberano, além de endurecer seu coração. Para os que são mais receptíveis (as multidões), a parábola os toca e os leva à decisão. Para os que creem (os discípulos), a parábola lhes ensina, ainda, as verdades do reino.

 
Mar
03
2010
O Protestantismo Imprimir E-mail
Artigos - Diversos

O Protestantismo

 

“Eu não me envergonho do evangelho de Cristo, pois ele é a força de Deus para salvação de todo aquele que acredita, do judeu em primeiro lugar, mas também do grego. Pois nele está a justiça de Deus revelada pela fé e na fé, como está escrito: ‘o justo viverá pela fé’.”

 

No século 16, uma série dramática de protestos religiosos, sociais e políticos, produziu uma nova e influente forma de cristianismo que logo cresceria para rivalizar com o católico e o ortodoxo, como o terceiro grande ramo da maior religião na Europa.

 

Mais tarde, o protestantismo se espalharia mundialmente em um dos maiores movimentos religiosos da história.

 

O protestantismo ou cristianismo protestante ganhou o seu nome do “Protesto”, que foi um documento de protesto editado em 1529 por seis príncipes alemães e representantes de 14 cidades ao sul da Alemanha.

 

Esta aliança se rebelava contra as decisões religiosas da assembléia imperial de Speyer, que tentava unificar territórios do Sacro Império Romano, que seriam as terras das modernas Suíça, Áustria e Alemanha, impondo uniformidade de culto. O documento declara dois princípios que estão no âmago da compreensão protestante do cristianismo.

 

O mesmo par de princípios fora declarado pelo padre alemão Martinho Lutero em seu famoso confronto tanto com a Igreja Católica Romana quanto com o Sacro Império Romano, em 1521.

 

O primeiro princípio é o de que a palavra de Deus é uma autoridade maior do que qualquer autoridade humana.

 

O segundo princípio é o de que só a consciência justifica a oposição a certos decretos eclesiásticos.

 

Na cidade de Worms, uma combinação de soberanos territoriais e líderes da Igreja se encontraram na chamada Dieta de Worms, e convocaram Lutero a se apresentar exigindo que ele se retratasse de suas doutrinas.

 

O confronto entre Lutero e a Igreja Católica Romana levaria ao “Protesto” oito anos mais tarde.

 

O protestantismo começou como um movimento modesto para tratar de certos problemas na estrutura existente da Igreja e do Estado. Lutero apelava para a consciência contra a autoridade eclesiástica, mas por outro lado alertava seus seguidores mais radicais de que não se podia permitir qualquer visão teológica.

 

Os contestadores em Speyer pediam liberdade de consciência religiosa, mas só para defender sua própria interpretação do cristianismo.

 

“Duas coisas ocupam o âmago da tradição protestante:

 

Uma é confiança na autoridade da escritura. Este antigo conjunto de escritos esclarece o modo de vermos o mundo.

 

O segundo tema no âmago e cerne do movimento protestante tem sido essa convicção de que nós somos perdoados, embora sejamos imperdoáveis. Que não precisamos merecer nossa salvação. Ela nos é dada de graça, como um dom. Nós temos a liberdade de ser o que somos”. (Brooks Holifield – Professor of Church History, Emory University)

 

A invenção da imprensa por volta de um século antes estava tornando cópias da Bíblia mais amplamente disponíveis. Vários cristãos passaram a decidir por si sós qual o sentido da Escritura.

 

Apesar de não chegarem a um acordo, a primeira geração de protestantes queria que seus seguidores tivessem as mesmas convicções teológicas. Eles se concentravam no que julgavam ser os erros da Igreja. Segundo a confissão de Genebra, concentrando-se a glória em Deus, os protestantes não sucumbiriam à glorificação de coisas humanas que se tornara tão saliente na Igreja Católica Romana.

 

A reforma no Sacro Império Romano logo tinha duas facções: uma, liderada por Lutero ao Norte, e outra, por Ulrich Zwingli, ao Sul. Essas duas facções protestantes só conseguiam concordar que discordavam.

 

Um outro princípio protestante inicial foi chamado de “sacerdócio universal dos fiéis”. Esse princípio não significava que não deveria haver pastores, nem significava que a hierarquia social deveria ser abolida. O “sacerdócio dos fiéis” significava que todas as pessoas possuíam acesso imediato a Deus. Que elas não precisavam da mediação de um padre.

 

Lutero defendeu algo parecido ao proclamar que todos os cristãos batizados são sacerdotes. Assim, cada pessoa tem o direito e mesmo a obrigação de se preocupar com o que está certo ou errado em matéria de fé. Os leigos não deviam ser intimidados por aqueles que alegam que essa tarefa é para especialistas. Lutero tinha interesse em examinar a natureza da vida religiosa, talvez por ter sido monge. Agora, ele argumentava que qualquer trabalho honesto feito a serviço de Deus é considerado como vida religiosa. Ele também defendia que todas as vocações são iguais perante Deus. Mas uma outra implicação surgiu de um novo foco protestante sobre a Bíblia.

 

A Bíblia foi traduzida para as línguas vernáculas e foi impressa e distribuída para leitura e interpretação. Os protestantes chamavam a Bíblia de fonte e autoridade da fé. E eles a viam como um livro para o povo, como o centro da devoção e do culto particular e coletivo. Mas persistia um problema. Já que os protestantes afirmavam que todos na igreja são pastores, por que haveria designações especiais?

 

A maioria dos primeiros reformadores acreditava que se deveria escolher pastores para a realização de certas tarefas. A Bíblia não era para ser compreendida, mas sim dramatizada. Tornou-se mais importante do que nunca que leigos soubessem ler e que fossem educados nas doutrinas básicas da fé.

 

A tarefa do pastor não era tanto a de conduzir um ritual formal, mas sim a de expor a Palavra ou anunciar o Evangelho. Assim, o sermão tornou-se o evento central do culto religioso. Alguns grupos como os quakers em meados do século 17 eram contra os chamados “pastores mercenários” que aceitavam pagamentos pelos seus serviços. Eles se queixavam que isso separava os pastores dos leigos.

 

Após lutas, conflitos e debates nas primeiras décadas da Reforma, surgiram quatro formas distintas de protestantismo. São as expressões: luterana, reformada, radical e anglicana do protestantismo. Esses movimentos apareceram primeiro na Europa, depois nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

 

O primeiro dos movimentos protestantes foi o luterano. O movimento luterano começou quando o padre católico Martinho Lutero, em 1517, pregou sua lista de 95 teses na porta de sua igreja em Wittenberg, Alemanha. Lutero baseou-se em sua própria experiência para criar uma nova compreensão da fé. Ele insistia que os humanos são incapazes de serem virtuosos sozinhos. E que a retidão vem unicamente de Deus com o perdão dos pecados.

 

No culto, Lutero manteve mais elementos da missa católica tradicional do que os outros grupos protestantes. Ele acreditava que alguns rituais continham uma tradição antiga e venerável. Mas a doutrina católica da transubstanciação, segundo a qual durante a comunhão o vinho e o pão literalmente tornam-se o corpo e o sangue de Cristo foi substituída por Lutero pela doutrina da “presença real”. A doutrina revisada de Lutero diz que o vinho e o pão não são alterados metafisicamente, mas apenas que Jesus realmente se faz presente durante a comunhão. Lutero baseou sua doutrina na declaração de Jesus na Última Ceia quando Ele quebrou o pão e disse: “Este é meu corpo”. Lutero manteve dois sacramentos, o do batismo e o da comunhão. Mas os outros cinco sacramentos católicos, crisma, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio, foram abandonados ou rebaixados para algo inferior a sacramentos. Lutero dizia que Cristo não os teria instituído e que a esses outros sacramentos faltava a promessa da Graça. Da mesma maneira, Lutero abandonou dogmas católicos como o do purgatório, o das relíquias de santos e o do acúmulo de méritos. Ele acreditava que esses dogmas não possuíam respaldo bíblico claro.

 

Ulrich Zwingli estava mais para um pastor político. Como ardente patriota suíço, ele defendia os direitos de seu país contra as intromissões de autoridades políticas e eclesiásticas externas. Quando Zwingli assumiu a posição de pastor em Zurique em 1519, ele chamou a atenção ao declarar que pregaria continuamente a partir do Novo Testamento. Zwingli disse que basearia toda a devoção religiosa unicamente na autoridade da Escritura. E isso o levou a se opor a várias práticas católicas tradicionais, tais como o jejum, a prece aos santos, a doutrina do purgatório e a obrigação de pagar o dizimo. O Concílio de Zurique exigiu um debate público entre Zwingli e os representantes do bispo. Para esta ocasião, Zwingli produziu 67 artigos, vários deles centrados no tema emergente da liberdade com relação às regras e às restrições eclesiásticas. As modificações de Zwingli acabaram por tornar-se um padrão para as igrejas reformadas. Em contraste com a abordagem luterana, Zwingli afirmava que a igreja devia fazer apenas o que consta nas Escrituras. Não pode apenas evitar o que é condenado. As diferentes igrejas reformadas aplicaram esse princípio diversamente, mas todas eliminaram muito mais da liturgia católica tradicional que os luteranos.

 

“A arte era muito importante nas igrejas antes da Reforma. Muitas pessoas não sabiam ler. O latim usado na missa não era compreendido pelas pessoas. Então os fiéis se sentavam no santuário. Sem saber exatamente o que ocorria, não participavam ativamente da missa. E a arte que eles podiam observar, lendo as figuras que estavam nos vitrais, nas pinturas e nas estátuas, se tornou muito importante pra eles. Mas infelizmente para alguns aconteceu de a arte se tornar mais importante do que aquilo que era representado. E isso foi parte da crítica da Reforma. Queriam fugir disto: dos que louvavam mais a obra de arte que o seu tema. Lamentavelmente, foram destruídas muitas peças incríveis na Reforma. Algumas pessoas assumiram a posição de que o único meio de cura estava na destruição de toda a arte. E isso foi muito triste”. (Katheryn Kimball – Curator, The Upper Room Chapel and Museum)

 

A tradição reformada também começou a procurar o modelo bíblico apropriado para organizar o governo da igreja.

 

João Calvino, pastor francês em Genebra, achou seu modelo em uma ordem de ministério de quatro frentes que ele dizia ter sido instituída por Jesus. As quatro ordens eram: pastor, doutor (que chamaríamos de professor), ancião e diácono.

 

Muitas diferenças teológicas impediram que os luteranos e a comunidade reformada cooperassem numa frente protestante comum. A questão que causava mais divisão era a comunhão. Zwingli achava que o conceito de Lutero de “presença real” lembrava demais a transubstanciação católica. Ele argumentava que pão e vinho significam ou representam o corpo e o sangue de Cristo. E a comunhão, por conseguinte, era só um memorial do que Cristo fez. Zwingli acreditava que a comunhão era claramente secundária ao serviço da Palavra. Ele sugeria que a ceia fosse celebrada trimestralmente, opondo-se assim ao desejo de Lutero de manter a Palavra e o sacramento juntos no culto cotidiano.

 

Os reformados também recebiam os elementos sentados, em vez de irem até a mesa. Os radicais religiosos surgiram logo no início da Reforma. Todo esse grupo de radicais representa um terceiro ramo do movimento protestante.

 

Havia quatro grupos distintos de radicais: os teocratas revolucionários, os espiritualistas, os antitrinitários e os anabatistas. Os teocratas e espiritualistas surgiram no início da Reforma alemã. Tomas Müntzer alegava ter recebido uma revelação que supostamente ia além da Escritura. E acreditava que essa revelação seria cumprida na história. Müntzer pregava que os eleitos se separassem dos ímpios e declarava que os príncipes cristãos deviam tomar a espada para estabelecer os preceitos de Deus. Durante mais de um século, Müntzer seria um símbolo tanto para protestantes como para católicos romanos. Mas os radicais chegaram a limites perigosos em seus esforços para derrubar a sociedade existente.

 

O terceiro grupo de radicais foram os antitrinitários. O mais famoso deles no século 17 foi Miguel Serveto, médico e filósofo espanhol, também conhecido como Michael Servitus. Preso em Genebra em 1553 pelas autoridades civis, Servitus foi julgado por heresia e condenado à morte. Sua execução foi importante para a autocompreensão protestante. Ela gerou um debate sobre a essência da fé protestante. Sua execução também gerou uma defesa da liberdade religiosa que se tornaria crucial para os protestantes que viriam. João Calvino participou na condenação de Servitus a ser queimado na estaca. E para ele a execução foi um triunfo da verdade sobre a heresia.

 

O termo “anabatista” ainda é às vezes usado para identificar vários desses grupos radicais. Mas o termo se aplica de modo mais apropriado a um grupo menor, cujos membros buscavam restaurar o estilo de vida apostólico que existia entre as primeiras comunidades cristãs. A alcunha “anabatista” na verdade foi um termo inventado pelos oponentes desses grupos. “Anabatista” quer dizer “rebatizador” e é usado para grupos que crêem que o batismo não é para crianças. Os anabatistas crêem que o batismo é só para os que podem confessar a sua fé. Os grupos anabatistas mais significativos foram os irmãos suíços, os menonitas e os huteritas. Os menonitas levam o nome de seu teólogo líder e antigo padre Menno Simon, e ficavam na Holanda e no norte da Alemanha após 1540. Na América do Norte, descendentes da tradição menonita incluem várias comunidades amish em áreas rurais de vários estados e no oeste do Canadá. Os anabatistas foram presos, banidos ou executados em graus variados ao longo do séculos XVI e XVII. As razões legais para essa perseguição eram violação da lei civil, rebelião e heresia. A perseguição foi ampla o bastante para criar entre os anabatistas um sentimento de “igreja de mártires”.

 

“É impossível para os batistas documentarem sua história do modo como outros o fizeram. A documentação é difícil para um grupo perseguido. Por não tolerarmos manipulação em questões religiosas, fomos severamente perseguidos até o ponto de sermos mortos em nossos primórdios. Em especial, onde soberanos resolviam decretar que todos naquele país deviam aderir à mesma igreja. Sentíamos que ser de uma igreja deveria ser uma conclusão da experiência religiosa. Cada um precisa ter uma experiência pessoal com o Senhor. Alguns crêem que você precisa ser batizado para ser salvo. Os batistas nunca defenderam isso. Eles acreditam que você é salvo pela Graça através da fé. Se batizamos por imersão, é porque isso é uma representação do que aconteceu com Cristo. Ele foi morto, foi enterrado e ressuscitou. O batismo vem depois da conversão e não como parte dela. Assim é retratado o que acontece ao indivíduo em sua confiança em Cristo. Ele é enterrado para sua antiga vida de pecados e ressuscita a uma nova vida em Cristo Jesus”. (Dr. James L. Sullivan, Past President, Southern Baptist Convention, Sunday School Board)

 

Por mais de mil anos a Inglaterra foi católica. No ano de 1509, Henrique VIII subiu ao trono. Ele desposou Catarina de Aragão. Mas ela e Henrique não conseguiram gerar um herdeiro homem. Em 1527, Henrique decidiu que o casamento deveria ser desfeito. Mas o papa se recusou a conceder uma anulação. O parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia em 1534, que declarava o rei Henrique VIII como autoridade suprema da Igreja da Inglaterra. Alguns viram tal lei como o início do protestantismo na Inglaterra. Outros viram a Igreja Anglicana como continuação da Igreja Católica. Mas desde então, como igreja inglesa, com uma autoridade local, o rei.

 

“O intuito da Igreja da Inglaterra no século 16 era ser uma igreja verdadeiramente nacional. Era para ser a Igreja na Inglaterra, não uma denominação à parte. Necessariamente, a Igreja de todas as pessoas. De certo modo, foi o desenvolvimento natural do que acontecia na Europa daquela época. Os estados-nação estavam em formação. Estavam descontentes com um poder internacional com o papado. Do século 14 em diante, na França, Itália, Alemanha, Espanha, todos os países diziam ‘Queremos continuar católicos romanos na teologia, mas queremos o controle de nossa própria igreja.’ De certo modo, era tudo o que Henrique VIII queria”. (The Very Reverand Reverendo Guy F. Lytle, III – Dean, School of Theology, University of the South)

 

Para aqueles que a viam como continuação da Igreja Católica, a Igreja da Inglaterra agora se tornara um meio-termo entre o protestantismo e o catolicismo romano.

 

O protestante Thomas Cranmer ajudou a resolver o problema marital de Henrique VIII, ao propor que a questão fosse colocada não ao papa mas sim aos teólogos das universidades.

 

O primeiro “Livro de Liturgia Comum”, escrito em 1549 e revisado em 1552, fora, em grande parte, obra do protestante Thomas Cranmer.

 

“Este é o livro de 1549. O primeiro ‘Livro de Liturgia Comum’ de Cranmer. Sua importância foi que ele se inspirou muito na beleza da liturgia católica da Idade Média, mas traduzindo-a para o vernáculo para ser acessível a todo o povo. O anglicanismo sempre considerou que, apesar da importância do clero e da importância dos bispos, o verdadeiro povo de Deus são os leigos. São todos os batizados que agora participavam totalmente do culto, graças ao trabalho de Cranmer”. (The Very Reverand Reverendo Guy F. Lytle, III – Dean, School of Theology, University of the South)

 

Em 1533, Cranmer tornou-se arcebispo de Canterbury. Em 1553, o catolicismo foi restaurado na Inglaterra, quando Maria, a filha católica de Catarina, tornou-se rainha. Cranmer foi queimado na estaca junto com algumas centenas de outros hereges protestantes. Outros protestantes fugiram para a Europa continental, para cidades protestantes, como Estrasburgo, Frankfurt e Genebra. Quando Maria morreu, em 1558, Isabel subiu ao trono. Ela era filha de Ana Bolena, segunda esposa de Henrique VIII, e como rainha, foi virtualmente impelida por tal descendência a ficar do lado dos protestantes. A Inglaterra voltava ao protestantismo, e os exilados podiam voltar para ajudar a protestantizar a Igreja inglesa.

 

Entre aqueles que divergiam do padrão anglicano, estava um grupo chamado de “puritanos”. Eles surgiram em parte de uma disputa sobre o governo da Igreja. Uma das primeiras discórdias envolvia a continuação do uso de vestes ou itens usados pelos pastores nas cerimônias do culto.

 

“Um dos símbolos inconfundíveis do bispo é o báculo. O bispo é o pastor líder do povo, e pastor significa quem comanda o rebanho. A idéia do báculo como símbolo de autoridade e de ser o pastor líder era, é claro, a de que o bispo pudesse alcançar e resgatar aqueles que precisavam ser salvos. Alguns bispos, com o passar do tempo, também salientaram que o báculo tem outra extremidade, com uma ponta afiada que, quando necessário, o bispo pode usar para espetar alguém, se for necessário.” (The Very Reverand Reverendo Guy F. Lytle, III – Dean, School of Theology, University of the South)

 

Alguns desses puritanos da Inglaterra podiam ser chamados de presbiterianos. Os puritanos meditavam muito sobre a gravidade do pecado, sua cura e a necessidade de Deus para suscitar a conversão de uma alma individual. Eles estavam convencidos de que a verdadeira igreja de Deus não possuía bispos e estavam comprometidos a um ministério-culto para o anúncio da Palavra na pregação.

 

Os puritanos mais tarde vieram a ser chamados de independentes e depois de congregacionalistas. Alguns independentes praticavam batismo nos crentes adultos e ficaram conhecidos como batistas. A igreja estabelecida e o Estado da Inglaterra se uniram para resistir a esses críticos, perseguindo muitos deles.

 

Após a era protestante da Reforma, um período de consolidação começou a delinear fronteiras teológicas e políticas na Europa. Em 1555, a Paz de Augsburgo acabou com as guerras entre os luteranos e os exércitos católicos do imperador do Sacro Império Romano Carlos V. Esse acordo permitiu que cada soberano territorial do Império determinasse se sua terra seria luterana ou católica. Nenhuma outra fé era permitida. Na França, guerras religiosas intermitentes chegaram ao fim com o Edito de Nantes, em 1598. O edito concedia certa liberdade religiosa aos protestantes franceses chamados huguenotes, mas foi rescindido quase um século depois. Os huguenotes foram forçados a fugir para as montanhas francesas ou emigrar. No início do século 17, Jaime VI, da Escócia, tornou-se o rei Jaime I da Inglaterra e fez uma reunião para resolver disputas entre bispos anglicanos e os reformadores. Embora sem conseguir resolver questões envolvendo o governo da Igreja e o culto, chegou-se a uma tradução oficial em inglês da Bíblia para ser usada em todas as igrejas britânicas. A chamada “Versão Autorizada da Bíblia”, mais conhecida como versão do Rei Jaime, surgiu em 1611.

 

No século 17, a Guerra dos 30 Anos invadiu terras do Sacro Império Romano e acabou com a paz de Westphaliam, em 1648. O império agora reconhecia as igrejas reformadas, além de católicos e luteranos. As guerras civis inglesas na década de 1640 deram liberdade por alguns anos para os presbiterianos dissidentes, independentes e quakers. Fundados por George Fox na década de 1640 e conhecidos como Membros da Sociedade de Amigos, eles mantinham várias convicções consideradas extremamente radicais pelo resto da sociedade. Os quakers afirmavam que práticas protestantes tradicionais, tais como o culto, o batismo e a comunhão eram exteriores e deviam ser rejeitadas. Não permitiam nenhuma ordem especial de pastores. Assim, as mulheres vieram a exercer maior liderança entre os quakers do que em outras expressões protestantes. Eles acreditavam em revelação imediata por obra do Espírito na vida dos crentes e consideravam a revelação bíblica uma fonte claramente secundária. Essa revelação podia ser discernida pela luz interior que Deus teria concedido a todas as pessoas.

 

“As pessoas entram e ficam em silêncio. Entram apenas uma de cada vez ou com a família, e o silêncio continua por cerca de uma hora, dependendo do que acontece e de como as pessoas se sentem”. (Jonatham Snipes – Society of Friends, Philadelphia Yearly Meeting).

 

“Isto vem dos quakers pioneiros, ou seja, o conceito de que Deus está dentro de todos. E todo o resto acaba derivando disso, incluindo a revelação contínua e a busca pela verdade”. (Kay Edstene – Friends Council on Education).

 

“Eu me levantar e romper o silêncio? Eu acho que eu só farei isso quando meu coração disparar e eu souber que é um coisa que eu preciso dizer. Mas a sensação é de sempre ter um espírito se movendo no grupo”. (Jonatham Snipes – Society of Friends, Philadelphia Yearly Meeting)

 

Com o decorrer do século 17, alguns protestantes reformistas e luteranos começaram a se queixar do caráter da fé e da vida religiosa que surgia dos esforços que competiam para definir a ortodoxia. Esses críticos foram chamados pietistas. O pietismo gerou uma grande quantidade de atividade prática incluindo atenção a questões sociais como educação, auxílio aos pobres, abolição da escravidão e temperança. O experimento religioso inglês terminou quando a monarquia inglesa foi restaurada por Carlos II, em 1660, e a religião anglicana foi rapidamente restabelecida. Os protestantes fora da Igreja inglesa ficaram então oficialmente conhecidos como dissidentes e o Ato de Tolerência de 1689 permitiu seus cultos.

 

O ressurgimento evangélico ocorreu em circunstâncias bem diferentes na Europa, na Grã-Betanha e nas colônias britâncias na América. Um historiador identificou quatro propriedades da religião evangélica. Primeiro, seu interesse na conversão ao cristianismo, baseado na crença de que vidas precisam ser mudadas. Segundo, a mensagem do Evangelho é expressa no esforço tanto pessoal como social. Terceiro, também há grande consideração pela Bíblia. E, finalmente, a visão evangélica da expiação enfatiza que não basta reverenciar Jesus como líder espiritual. Os evangélicos proclamam que Jesus foi um Salvador que foi sacrificado na cruz pelos pecados da humanidade.

 

Uma das formas mais importantes de evangélicos do século 18 foi o movimento metodista, fundado e liderado pelo pastor anglicano João Wesley. O entendimento de Wesley da mensagem da tarefa cristãs refletia em vários aspectos os ideais do pietismo. O movimento de Wesley visava renovar as instituições existentes em vez de estabelecer uma nova instituição religiosa. Centrava-se nos leigos e pregava o crescimento na santidade mais do que a correção teológica.

 

“Para Wesley, a essência do cristianismo é o amor a Deus e o amor ao próximo. Sua preocupação principal não era com uma preocupação intelectual da fé, mas ele se preocupava em viver a fé na vida das pessoas”. (Bishop Kenneth L. Carder – Nashville Episcopal Area, United Methodist Church).

 

Mas em vários pontos Wesley foi além do que os pietistas tinham ido um século antes. Ele acreditava que todo ser humano tem um papel na própria salvação. Isso significa que ele se opunha à doutrina de predestinação. Sobre a questão de se a graça de Deus é oferecida só a alguns ou a todos, Wesley entrou em discórdia com os calvinistas.

 

“Pela sua crença na graça divina universal, que era para ‘todos e em todos’, citando suas palavras, ele assim propagou a mensagem do amor redentor de Deus por todas as pessoas. Juntou pessoas em pequenos grupos, educou-as na fé e então enviou pessoas para a América, para continuar aquele movimento. Ele não tinha intenção de iniciar uma nova igreja. Ele somente estava interessado em espalhar a santidade das Escrituras pela Terra”. (Bishop Kenneth L. Carder – Nashville Episcopal Area, United Methodist Church).

 

“O quadro ‘Ofereça-lhes Cristo’ foi feito com tamanha pesquisa que é como se nós pudéssemos voltar ao final do século 18 e ver João Wesley enviando Tomás Coke para a América. A pesquisa é tão completa, que o sol está na posição correta, as nuvens correspondem à época do ano, o nível da água está correto e, felizmente, o pintor pôde ir até a Inglaterra e examinar esta área específica. Assim ele pôde examinar, estudar e retratar tudo com precisão”. (Katheryn Kimball – Curator, The Upper Room Chapel and Museum)

 

Wesley organizou pequenos grupos por sexo e estado civil. Ele também desenvolveu uma organização de pastores para viajar entre as comunidades metodistas.

 

João Wesley morreu em 1791. Durante a sua vida, o movimento metodista permaneceu parte da Igreja Anglicana. Mas, após sua morte, aos poucos foi se tornando uma religião à parte.

 

Um culto protestante típico possui leitura da Bíblia, orações, sermão e canto de toda a congregação. Mas o que os protestantes cantam e como o fazem, mudou consideravelmente com o passar dos séculos.

 

Durante o século 16, os primórdios do protestantismo, o canto geralmente envolvia canções métricas.

 

Os primeiros protestantes só aceitavam orações contendo as próprias palavras de Deus. Assim, diziam que o saltério era o hinário cristão por excelência. Mas, embora a salmodia fornecesse hinos clássicos, como o Salmo 100, apenas algumas variações dos textos antigos podiam ser usadas.

 

Wesley se impressionou com o poder da música de mover os ouvintes e de despertar suas emoções. E o movimento metodista aproveitou-se ao máximo dessa oportunidade. Wesley recomendava a construção de capelas octagonais, pois a acústica delas era boa para pregar e cantar. João Wesley estava plenamente ciente de que a música exagerada ou inapropriada poderia afastar as pessoas da intenção espiritual adequada. Assim, ele propôs que só canções e hinários autorizados deveriam ser utilizados em encontros metodistas.

 

O irmão dele, Carlos, escreveu milhares de versos metodistas sobre uma ampla gama de assuntos.

 

“Se você quiser saber de fato no que os metodistas crêem, descobrirá melhor lendo e ouvindo os hinos de Carlos Wesley do que de qualquer outro jeito, e a teologia que será cantada é uma teologia que terá impacto sobre a sociedade e as pessoas. Os hinos mais conhecidos talvez sejam familiares a todos os cristãos. ‘Hark! The Herald Angels Sing’. ‘Christ The Lord Is Risen Today’. ‘O for a Thousand Tongues to Sing’. ‘Love Divine, All Loves Excelling’. São do tipo de palavras, hinos e canções que penetram fundo na alma e essência das pessoas e da sociedade inteira”. (Bishop Kenneth L. Carder – Nashville Episcopal Area, United Methodist Church)

 

Os hinos protestantes floresceram no século 19. Os hinos e canções apoiavam causa de organizações voluntárias, tais como sociedades missionárias e grupos de temperança. Hinos seriam adaptados a eventos como cultos de revival. As convicções básicas de uma comunidade religiosa também podiam ser reforçadas e lembradas pela música que, por sua vez, podia ser adaptada para diferentes ambientes.

 

A Igreja Anglicana dominava as primeiras colônias americanas no século 17 na Virgínia. Como veremos mais tarde, o anglicanismo também viria a dominar as futuras colônias sulistas.

 

Nas colônias centrais, os povoados em Nova York e Nova Jersey, eram reformistas holandeses ou presbiterianos escoceses-irlandeses. Os quakers se estabeleceram na Pensilvânia. Tal mistura gerou mais diversidade religiosa nas colônias centrais do que nas outras colônias.

 

As colônias puritanas no norte privilegiavam um meio-termo. Elas não eram nem sectárias nem episcopais. Mas um agregado de congregações individuais, cujos membros comandavam a comunidade. Elas se estabeleceram na Nova Inglaterra visando a estabelecer um experimento sagrado que se tornaria uma luz para as nações.

 

A conversão ao puritanismo incluía uma série de estágios pelos quais as pessoas deveriam passar. Mas mal haviam começado e já surgiram desafios e dissidência.

 

Roger Willians, um pastor puritano, se opôs à mistura de autoridades civil e religiosa em sua colônia de Massachusetts. Willians foi banido, e iniciou a colônia de Rhode Island com uma base religiosa bastante diferente.

 

Anne Hutchinson acusou pastores de tornarem as obras humanas parte do processo de conversão. Sua acusação penetrou fundo no coração da teologia puritana. Hutchinson foi julgada diante dos pastores e também foi banida.

 

Mais tarde, os quakers chegaram à colônia de Massachusetts para pregar sobre a obra do Espírito Santo e para defender a tolerância de crenças dissidentes. Eles também foram banidos. Alguns dos quakers banidos voltaram a Massachusetts e na segunda prisão foram encarcerados ou enforcados.

 

Em 1742, o pastor congregacional da Igreja de Northampton, Jonathan Edwards, escreveu sobre o que as pessoas chamavam de “um grande geral despertar nas colônias”. O despertar na América foi parecido com o europeu, mas foi tão trágico que Edwards começou a achar que Deus fazia algo especial na América. Uma renovação da religião agora se centrava na conversão daqueles fora da Igreja e na separação daqueles que não tinham sido convertidos.

 

Fortes opiniões sobre tais questões dividiram os presbiterianos entre a chamada “facção nova”, que defendia o despertar, e sua oponente, a “facção antiga”. Esse cisma presbiteriano persistiu por volta de 20 anos. No final, o Grande Despertar provou ser um dos movimentos religiosos mais influentes da história americana.

 

No século 18, o sul dos Estados Unidos continha apenas as quatro colônias de Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia. Todas, menos a Virgínia, recentemente assentadas. Mas as tradições que se iniciaram no sul acabaram por causar grande impacto sobre o protestantismo dos Estados Unidos. Batistas e metodistas no sul chamavam-se de irmão e irmã, e incluíam escravos em suas famílias religiosas. Os sulistas se concentravam mais em questões de santidade pessoal freqüentemente condenando danças e bebida. Os sulistas tentavam reproduzir a instituição religiosa anglicana na que se tornaria conhecida como Igreja Episcopal nos Estados Unidos.

 

O novo estilo religioso dos despertares do século 18 transformou o convívio entre as raças negra e branca. Os evangélicos no sul dos Estados Unidos em geral acolhiam bem todos os tipos e condições de pessoas incluindo pastores negros, que viraram líderes de comunidades religiosas, principalmente batistas e metodistas.

 

Muitos evangélicos eram contra a escravidão. Mas no início do século 19, o evangelismo branco recuou em suas posições antiescravagistas e o evangelismo negro seguiu por uma trilha distinta.

 

“Em novembro de 1786, a ruptura mais drástica, com a igreja mãe, a Igreja Metodista de São Jorge, na Filadélfia, ocorreu quando Absalom Jones, William White e Richarde Allen tentaram ajoelhar e orar no altar. Os diáconos da igreja, que era predominantemente branca, os retiraram fisicamente, e a congregação, o segmento negro da congregação, sentiu-se ultrajada. E eles, de um modo bem dramático, se retiraram. Em decorrência disso, entre 1787 e 1791, nascia uma igreja sob o nome de The First Church Mother Bethel, na Filadélfia”. (Robert. D. Taylor, Jr. – Author, Historian and Minister of Music, Mother Liberty C. M. E. Church)

 

O novo estilo religioso do século 19 era cada vez mais baseado em valores democráticos, algo que metodistas e batistas possuíam em abundância. Em seus pastores, eles queriam entusiasmo mais que educação, e encorajavam ativamente a participação dos leigos em todos os aspectos da obra, incluindo a pregação.

 

Os pastores itinerantes se adaptaram muito bem à expansão da fronteira ocidental. E a ênfase metodista e batista no livre-arbítrio em vez de predestinação se encaixou ao espírito da nação.

 

Tal panorama se tornou a base para uma nova onda de revivals no primeiro terço do século 19. A energia espiritual dos revivals espalharia novas denominações protestantes como a Igreja Presbiteriana de Cumberland e a Igreja Cristã ou Discípulos de Cristo.

 

“O fenômeno que estava tomando Kentucky naquela época foi o segundo grande despertar, em especial o grande revival em Cana Ridge, em agosto de 1801, e acabou por ser o mais climático e grandioso de todos os revivals. Havia pessoas de todas e de nenhuma convicção religiosa. Mas um fenômeno surgiu que ainda nos causa espanto hoje, como causava naquela época. As pessoas se surpreendiam fazendo exercícios espirituais. Algumas rolavam no chão, algumas latiam como cães, outras tinham grandes surtos de gargalhadas. É um mistério, mas quem pode explicar tudo que se relaciona com o Espírito? Porém, existe um acordo que é o poder desse momento de transcender as divisões entre as denominações. Presbiterianos ouvem metodistas, metodistas ouvem batistas. Que bom era estar em comunhão no mesmo espírito e na adoração de Deus”. (Peter Morgan – Disciples of Christ Historical Society)

 

Normalmente as mulheres não podiam se tornar líderes protestantes. Mas muitas participavam daquele entusiasmo, empregando-o a seu modo. Francis Willard organizou mulheres para apoiar a temperança. Algumas mulheres, como Jarena Lee, reivindicavam o direito de pregar.

 

A chamada Era Moderna tem sido caracterizada com termos sugestivos, tais como “liberal” e “democrática”.  Foi a época do desenvolvimento de impérios industriais e complexos urbanos.

 

A modernidade também foi caracterizada por idéias que incluem o capitalismo, o nacionalismo, o colonialismo e o darwinismo. Para os protestantes, a Era Moderna foi cheia de oportunidades e ansiedade. Os protestantes liberais acreditavam que a fé religiosa é consistente com a crítica acadêmica. E que se pode descartar muito das velhas tradições, a fim de preservar a essência da mensagem cristã. Para os liberais, a pior coisa que os cristãos podiam fazer seria tentar proteger ou isolar a Bíblia de seus críticos. Assim, para os protestantes liberais a Bíblia é um livro humano e histórico, assim como a religião é um fenômeno humano.

 

O século 19 também testemunhou um ressurgimento conservador entre os protestantes. E não apenas entre devotos antiquados do tipo que interpretam literalmente os relatos da Criação no Gênese.

 

Os liberais alegavam que o homem tem a capacidade de conhecer o desejo de Deus. Os conservadores argumentavam o contrário, que Deus só é conhecido por meio da revelação bíblica.

 

Os textos bíblicos mencionam o chamado “fim dos tempos” e espera-se que Jesus Cristo volte em glória.

 

Os pré-milenaristas acreditavam que nos aproximávamos desse milênio. Eles rejeitavam a esperança liberal nas possibilidades humanas na Terra. Eles alegavam que a volta de Cristo seria um cataclisma carregando os crentes para fora do mundo para estar com Deus.

 

“E eu vi o céu aberto: apareceu um cavalo branco e o seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro. Ele julga e combate com justiça”.

 

Algumas visões milenaristas geraram novas religiões no século 19. A mais notável foram as igrejas adventistas, que surgiram após um fazendeiro de Nova York, William Miller, prever que Cristo voltaria em 1844. Liberais e conservadores coexistiam sob a mesma denominação. Nos pontos extremos do debate, houve discussões notáveis incluindo cismas de denominações e até julgamentos de heresia. Mas tais conflitos não geraram grandes reajustes institucionais.

 

No século 20, o movimento ecumênico também remodelou o juízo cristão sobre outras religiões. A postura antiga de rejeitar e condenar religiões não-cristãs foi questionada. A mensagem evangélica tradicional de simplicidade e clareza, centrada na confiabilidade na Bíblia e na salvação em Jesus Cristo, atraiu muitos seguidores na metade final do século 20.

 

Da mesma forma que os protestantes conservadores apoiaram causas politicamente conservadoras, os protestantes liberais também atuaram ativamente a favor de causas politicamente liberais. Questões como homossexualismo, aborto, política externa e ambientalismo tornaram-se polêmicas religiosas. Elas invocam poderosos ideais e compromissos religiosos, quando cristãos se deparam com questões que inflamam a vida política moderna.

 

“Protestante” é um termo amplo e flexível. Se indagarmos, poucos membros de igrejas protestantes se identificariam primeiro como “protestantes”.

 

Uma provável primeira descrição seria “cristão” ou nome de uma denominação específica ou adjetivos definidores como “evangélico” ou “pentecostal”. Vários protestantes têm diferentes visões da natureza da igreja, do ministério, do culto e da autoridade religiosa. Eles celebram o batismo e a comunhão de modos diferentes e associam diferentes significados a esses dois sacramentos. E apesar da diversidade das idéias protestantes ou da volatilidade que isso traz, os compromissos fundamentais do protestantismo continuam a dar significado e vitalidade a essa expressão ampla e mundial da religião cristã.

 

A Greenstar Television

1998, Religions Of The World, LLC

Todos os direitos reservados

 

Legendas Videolar

Texto transcrito por Hudson Lebourg

 
<< Início < Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo > Fim >>

JPAGE_CURRENT_OF_TOTAL