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Efésios 1.1-11 Apoia o Calvinismo?
Jack Cottrell
PERGUNTA: Os calvinistas dizem que Efésios 1.1-11 estabelece claramente a soberania absoluta e toda-inclusiva de Deus, incluindo a predestinação incondicional dos eleitos para a salvação. Como você interpreta este texto?
RESPOSTA: Uma correta compreensão de Efésios 1.1-11 começa com o reconhecimento de que o propósito de Deus para Israel estava desde o princípio limitado à preparação para a vinda do Messias, a saber, para a encarnação de Deus, o Logos, como a pessoa humana Jesus de Nazaré. Uma vez que o Messias veio, era o propósito eterno de Deus unir todos os crentes israelitas e todos os crentes gentios em um novo corpo chamado a igreja. Este é o ponto principal do livro de Efésios, e é a chave para o entendimento da frequentemente mal empregada passagem de Efésios 1.1-11.
É bastante óbvio que Efésios 1 coloca considerável ênfase na vontade de propósito de Deus ou sobre o que Deus deseja e decide fazer. O versículo 5 diz, “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito [eudokia] de sua vontade [thelema].” O versículo 9 diz, “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade [thelema], segundo o seu beneplácito [eudokia], que propusera [protithemi] em si mesmo.” Então, no versículo 11, lemos que “fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade.” Neste último versículo encontramos três palavras – prothesis, boule e thelema – praticamente empilhadas uma sobre as outras num esforço para ressaltar o conceito de propósito eterno.
Este último versículo também diz que Deus faz “todas as coisas” segundo o conselho da sua vontade. É por isso que os deterministas, tais como os calvinistas, falam de um decreto eterno que é todo-inclusivo e universal: Paulo não diz todas as coisas? Porém, aqueles que tomam isso num sentido absoluto ignoram o contexto imediato e o tema principal de Efésios como um todo. O termo “todas as coisas” (panta) não é necessariamente absoluto e deve ser entendido dentro das limitações impostas pelo contexto. Isso é visto claramente em 1Coríntios 12.6, que diz que Deus é aquele que “opera tudo [panta] em todos.” A linguagem é exatamente paralela a de Efésios 1.11; até o verbo é o mesmo [energeo]. No entanto, o contexto de 1Coríntios 12 claramente limita “todas as coisas” aos dons espirituais do Espírito Santo, e o versículo 11 diz bem especificamente: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.” De maneira similar, o contexto de Efésios 1.11 não nos permite pensar em “todas as coisas” num sentido absolutamente inclusivo, mas nos mostra o foco específico do propósito de Deus que está em vista aqui.
Qual é o foco? A chave para uma compreensão adequada deste encontra-se na referência de Paulo ao “mistério da sua vontade” no versículo 9. Qual é o mistério do qual Paulo fala aqui? Ele se refere a esse mistério novamente no capítulo 3, onde ele se maravilha de que a ele em particular foi dado o privilégio de conhecer este mistério. Ele diz que “como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi; por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo” (3.3-4). “A mim,” ele exulta, “o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus” (3.8-9). Devemos ter o cuidado de não tornar o mistério genérico demais, como se fosse simplesmente o fato de Cristo ou o fato da salvação. Não, é muito mais específico do que isso. Paulo o afirma mais especificamente em 3.6, a saber, “que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho.” Este é o grande mistério “o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” (3.5). E o apóstolo Paulo, nomeado para ser o apóstolo dos gentios, ficou simplesmente maravilhado com este fato. Ninguém estava mais comprometido com a exclusividade judaica do que Saulo de Tarso; assim, ninguém ficou mais surpreso com o fato de que Deus estava agora, em Cristo, abandonando essa exclusividade e unindo os gentios (os gentios!) com os judeus em um novo tipo de corpo chamado a igreja (3.10). No capítulo dois ele comenta o fato de que Jesus quebrou a barreira que dividia judeus e gentios e dessa forma dos dois grupos fez um novo homem, reconciliando ambos com Deus em um só corpo através da cruz (2.11-16). Até mesmo a sua referência ao casamento – “serão dois numa carne” – relembra-o novamente desse grande mistério, que os dois grupos (judeus e gentios) se tornaram um corpo em Cristo e sua igreja (5.31-32).
Este é o mesmo mistério sobre o qual ele está escrevendo no primeiro capítulo de Efésios. Sim, Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, mas qual conselho ou plano específico está em vista aqui? O plano para unir judeus e gentios em um só corpo chamado a igreja (3.10) para louvor da sua glória. Este propósito específico é visto nos versículos que imediatamente seguem 1.11: “... com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.12-14).
Nestes versículos (como em 1.4-11) o “nós” e o “vós” se referem aos judeus e gentios. Neste caso Paulo se identifica com os judeus, a quem ele chama de “os que primeiro esperamos em Cristo.” Nos versículos anteriores ele se detém no propósito de Deus para os judeus como nação: como Deus os escolheu (“nós”) antes da fundação do mundo, como ele os predestinou para adoção como filhos, como ele lhes ofereceu o evangelho da graça primeiro (veja Rm 1.16; 2.8-9). Deve ser notado que as referências à predestinação em Efésios 1 estão falando estritamente da predestinação da nação de Israel e não dos crentes individuais. Sua principal ênfase até o versículo 12 é sobre o propósito de Deus para os judeus (“nós”). Mas então nos próximos versículos ele começa falando na segunda pessoa, “vós,” ou seja, vós, os gentios. No versículo 12 ele diz que “nós os que primeiro esperamos em Cristo” fomos usados para louvor da sua glória, mas agora “também vós” foram trazidos para a esfera da salvação “para louvor da sua glória” (v. 14). Este é o tema que ele continua para desenvolver, em seguida, nos capítulos dois e três principalmente.
Assim, vemos que “todas as coisas” em Efésios 1.11 não têm uma referência universal; a vontade de propósito ou decretiva de Deus não inclui todas as coisas que acontecem em todo o âmbito da natureza e da história. Todavia, ela inclui o estabelecimento da igreja como o corpo que une judeus e gentios sob uma cabeça, Jesus Cristo (cf. 1.10). Esta é provavelmente a principal referência na comissão de Ananias a Saulo de Tarso, em Atos 22.14, “O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conheças a sua vontade” (veja também Colossenses 1.27), a saber, a sua vontade de unir judeus e gentios em uma igreja.
[A maior parte deste material foi tirada do meu livro, What the Bible Says About God the Ruler, 306-309.]
Fonte: http://www.facebook.com/notes/jack-cottrell/does-ephesians-11-11-support-calvinism/10150726363795617
Tradução: Cloves Rocha dos Santos
A Predestinação Divina
I. Howard Marshall
Várias passagens em João sugerem que os homens vêm à fé somente através da atração do Pai e em virtude de Sua vontade a seu respeito (Jo 6.37, 44, 65; 8.47; 10.29; 15.16, 19; 17.2, 6; cf. 17.9, 11, 12, 24; 18.9). Estas afirmações ensinam explicitamente que aqueles que creem em Jesus são aqueles que foram dados a Ele e atraídos a Ele pelo Pai, e pode muito bem ser concluído que elas envolvem a salvação final daqueles que vêm a Jesus, visto que não há sugestão de que haja algo temporário acerca do propósito do Pai.
Nosso estudo do ensino de Paulo levou à conclusão que até a sua mais rigorosa linguagem predestinacionista não excluía a necessidade para a fé humana. Admitindo que a fé é dom de Deus, sendo incitada nos homens através do chamado divino que eles ouvem, é todavia um dom que pode ser recusado, de forma que não devemos pensar numa causação e propósito divinos secretos que inevitavelmente fazem com que certos homens escolhidos creiam e sejam salvos. Mas qual é o ensino de João?
É expressamente afirmado que aqueles que o Pai dá a Jesus ‘vem’ a Ele (Jo 6.37) e também que Jesus dá a vida eterna a todos que o Pai dá a Ele (Jo 17.2). Além disso, a palavra ‘vem’ tende a ser sinônimo de ‘crer’ (Jo 6.35; cf. 5.40). Estas afirmações sugerem que o ‘atrair’ ou ‘dar’ divino dos homens a Jesus resulta automaticamente em sua recepção da fé e da vida eterna. Uma divisão da humanidade em duas classes também parece ser ensinada, de forma que os homens que não pertencem à classe daqueles que o Pai atrai e que não são de Deus (Jo 8.47) não podem entrar para a classe dos filhos de Deus. Isto seria muito parecido com o dualismo gnóstico.[1]
Este raciocínio e conclusão exigem um exame cuidadoso. (1) Podemos começar mencionando a interpretação de R. Bultmann, que escreve: “O ‘atrair’ do Pai não precede o ‘vir’ do crente a Jesus – em outras palavras, não acontece antes da decisão da fé – mas, como a renúncia de sua própria certeza e auto-afirmação, ocorre nesse vir, nessa decisão de fé.... Se a fé é tal rendição de sua própria auto-afirmação, então o crente pode entender sua fé, não como a realização de sua própria determinação, mas somente como uma operação divina sobre ele.”[2] Podemos muito bem aceitar a segunda destas duas sentenças, mas a primeira está aberta a crítica. É uma tentativa de reinterpretar o texto em termos do próprio existencialismo de Bultmann, no qual nenhum espaço é deixado para uma influência sobrenatural, divina, sobre os homens, e está aberta à simples porém conclusiva objeção que se João quisesse dizer o que Bultmann supõe que ele diz, ele certamente teria se expressado diferentemente. É impossível fugir da impressão que João está fazendo referência a um ato divino que precede a fé em Jesus e torna a fé uma possibilidade. Para João, como para Paulo, a graça preveniente é uma realidade.
(2) Um ponto mais convincente é que aqueles que estabelecem um dualismo nestes versículos em João negligenciam o grande peso universalista que também é encontrado no Evangelho. É afirmado de forma clara e inequívoca que Jesus morreu pelo mundo (Jo 3.16f.; cf. 1.12, 29; 1Jo 2.2).[3] Enquanto é verdadeiro que ninguém pode vir ao Filho a não ser que o Pai o atraia, é também verdadeiro que “Está escrito nos profetas: ‘E serão todos ensinados por Deus.’ Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.” (Jo 6.45). Quando Ele for levantado da terra, Jesus irá atrair todos os homens a Si mesmo (Jo 12.32).
(3) Devemos agora observar que a linguagem predestinacionista não é rigorosamente aplicada em todos os casos. É possível aos homens ver Jesus, e todavia não crer (Jo 6.36). Toda a última parte de João 5 critica os judeus por não crerem em Jesus, e a razão apresentada para sua incredulidade não é que eles não foram predestinados a crer, mas que eles buscam glória dos homens. Pode até mesmo haver uma inversão da linha de raciocínio delineada acima quando é dito que a razão por que a palavra do Pai não permanece neles é porque eles não creem no Filho (Jo 5.38). Novamente, em Jo 12.37ff., é afirmado que a razão por que as pessoas não criam era que Deus endureceu seus corações em cumprimento à profecia de Isaías, e tal endurecimento deve ser entendido como um julgamento sobre um fracasso prévio de crer e não como um endurecimento ab initio que exclui inteiramente a possibilidade de fé. Todavia, apesar deste endurecimento, algumas pessoas criam em Jesus, e Ele continuava a oferecer o evangelho da vida eterna a elas.[4]
(4) Destas considerações concluímos que o propósito da linguagem predestinacionista em João não é expressar a exclusão de certos homens da salvação porque eles não foram escolhidos pelo Pai (embora seja ensinado um endurecimento divino desses que persistentemente recusam o evangelho), mas enfatizar que, do início ao fim, a vida eterna é o dom de Deus e não se encontra sob o controle dos homens. Alguém que tentar ganhar a vida eterna em seus próprios termos descobrir-se-á incapaz de vir a Jesus porque não foi concedido pelo Pai (Jo 6.65); ele continua de fato resistindo à direção do Pai. Deixar de responder a Jesus é culpável, e o julgamento acontece como resultado de uma recusa a crer. A responsabilidade humana para aceitar Jesus como Salvador é claramente ensinada.
(5) Um passo adicional que podemos dar é o de observar que as declarações sobre a predestinação têm como propósito mostrar a unanimidade do Pai e o Filho na concessão da salvação aos homens. Ninguém pode ter o Pai sem o Filho, nem o Filho sem o Pai, pois ninguém pode crer no Filho sem ser atraído pelo Pai, e ninguém pode ter a palavra do Pai permanecendo nele sem crer no Filho. Se o Pai atrai homens ao Filho, o Filho é o caminho para o Pai (Jo 14.6; cf. Mt 11.27).
Quando temos em mente que o Evangelho de João é dirigido primariamente aos judeus,[5] parece razoável arriscar a sugestão que João está ensinando que os judeus que deixam de aceitar a revelação de Deus que Ele já tinha dado antes da vinda de Jesus não pode esperar contorná-la e vir a Jesus de alguma outra forma. Colocado de outra forma, a razão por que os judeus fracassaram em crer em Jesus era porque eles já tinham fracassado em crer nas revelações anteriores de Deus a eles. A declaração que “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11) podia ser aplicada à vinda da Palavra de Deus ao seu povo antes que Ele viesse em Jesus. Os judeus examinavam as Escrituras, e todavia falharam em encontrar uma evidência de Jesus nelas (Jo 5.39f.); eles não tinham o amor do Pai neles e não tinham crido em Moisés (Jo 5.42ff.). Dessa forma, eles não escutaram a Jesus porque eles não eram de Deus (Jo 8.47).
Um judeu, então, que já tinha recusado a palavra de Deus dada a ele nas Escrituras não creria na nova revelação dada em Jesus (cf. Lc 16.31). Consequentemente, a mesma mudança ocorre como encontramos em Paulo: quando os judeus não davam crédito, Jesus se vira para os gentios; Ele morre para o mundo, para os filhos de Deus que andavam dispersos, e pela Sua morte Ele atrai todos os homens a Si mesmo (Jo 11.52; 12.31-3; cf. 10.16). Ele aguarda a conversão daqueles que irão crer através do testemunho do grupo de discípulos originalmente dados a Ele pelo Pai (Jo 17.20).
Quando estes vários pontos são reunidos, fica claro que uma simples divisão de homens em aqueles que estão preordenados a responder ao evangelho e aqueles que estão preordenados a rejeitá-lo deixa de fazer justiça à complexidade do pensamento de João. Os homens que o Pai dá a Jesus são aqueles judeus que já responderam a Ele. Certamente um homem que não conhece o Pai, isto é, um gentio, será atraído pelo Filho, mas para um judeu vir a Jesus somente é possível se ele estiver ‘aberto’ à revelação do Pai que já recebeu. As razões sobre as quais o Pai atrai os homens não são afirmadas, e sua eleição é conhecida somente pelo fato de sua ocorrência. É sábio, portanto, não pressionar a linguagem predestinacionista de João longe demais e extrair dela a teoria de uma cadeia lógica e inevitável de causação divina.
Fonte: Kept by the Power of God, pp. 177-180
Tradução: Paulo Cesar Antunes
[1] Cf. Jo 10.26. Um dualismo deste tipo é aceito pelo teólogo calvinista L. Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, pp. 282-296.
[2] R. Bultmann, Theology of the New Testament, 1952-55, II, p. 23; cf. Das Evangelium des Johannes, pp. 171-4, especialmente a p. 172.
[3] Cf. C. K. Barrett, The Gospel according to St John, 1955, p. 68. Note que a linguagem sobre as operações inescrutáveis do Espírito (Jo 3.8) deve ser entendida neste contexto. Seu propósito é enfatizar que a salvação se deve à iniciativa divina e não à realização humana.
[4] E. C. Hoskyns (e F. N. Davey), The Fourth Gospel, 19472, p. 429, comenta sobre ‘este patente paradoxo’. R. Schnackenburg, Das Johannesevangelium, Freiburg, 1965 e 1971, II, p. 385, nota o fato que o pensamento de uma exclusão inalterável da salvação (Jo 10.26) é excluída pelo fato que os mesmos judeus são exortados a crer nos versículos 37f. Veja suas discussões detalhadas em I, pp. 522-524; II, pp. 328-346.
[5] W. C. van Unnik, ‘The Purpose of St John’s Gospel,’ em TU, 73, 1959, pp. 382-411. Isto obviamente não exclui sua relevância para o gentio atencioso, como enfatizado por C. H. Dodd, The Interpretation of the Fourth Gospel, 1954.
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